LIÇÕES BÍBLICAS CPAD
JOVENS
1º Trimestre de 2026
Título: Plano Perfeito — A salvação da
Humanidade, a mensagem central das Escrituras
Comentarista: Marcelo Oliveira
Lição 9: O livre-arbítrio na Salvação
Data: ´1º de março de 2026
TEXTO PRINCIPAL
“Quem
crê nele não é condenado; mas quem não crê já está condenado, porquanto não crê
no nome do unigênito Filho de Deus.” (Jo 3.18).
ENTENDA O TEXTO PRINCIPAL:
👉 A declaração de João 3.18 encontra-se no coração do discurso de
Jesus a Nicodemos e funciona como um desdobramento direto do versículo 16. Não
se trata de uma afirmação isolada, mas da explicação teológica do que
significa, na prática, o amor salvador de Deus manifestado no envio do Filho. O
texto responde a uma questão decisiva: como esse amor se traduz em juízo, fé e
destino eterno do ser humano. O verbo “crer” aparece duas vezes no texto e
traduz o termo grego pisteúō, que em
João não indica mero assentimento intelectual, mas confiança pessoal, entrega e
adesão existencial. Crer “nele” significa vincular-se ao Filho como aquele que
revela plenamente o Pai e comunica a vida eterna. Por isso, o Evangelho de João
nunca fala de fé como algo abstrato, mas sempre relacional. A fé é resposta
viva à revelação de Deus em Cristo. Quem crê, portanto, não apenas aceita uma
verdade, mas entra em comunhão com a própria fonte da vida. A afirmação “não é
condenado” revela que a condenação não é o ponto de partida para quem crê, mas
algo do qual ele é liberto. O verbo grego krínō
envolve a ideia de julgamento judicial, veredito e sentença. Aqui, João afirma
que a fé em Cristo remove o ser humano da esfera do juízo condenatório. Isso
não ocorre porque Deus ignora o pecado, mas porque o Filho assume, em favor do
crente, a realidade do juízo que o pecado produz. A fé, portanto, não é um
mérito humano, mas o meio pelo qual o pecador se apropria da obra redentora
realizada por Cristo. Em contraste, a segunda parte do versículo introduz uma
afirmação teologicamente densa e pastoralmente desafiadora: “quem não crê já
está condenado”. O texto não diz que será condenado no futuro, mas que já se
encontra sob condenação. Isso revela que o juízo não começa no fim da história,
mas no presente, como consequência da rejeição da luz. O problema central não é
a falta de informação, mas a recusa da revelação. O ser humano permanece na
condição de condenação não porque Deus se nega a salvá-lo, mas porque rejeita o
único meio pelo qual a salvação é oferecida. A expressão “no nome do unigênito Filho de Deus” aprofunda ainda mais o sentido
da incredulidade. Na mentalidade bíblica, o “nome” representa a identidade, a
autoridade e a missão da pessoa. Não crer no nome do Filho é rejeitar quem Ele
é e o que Ele veio realizar. O termo “unigênito” (monogenḗs) enfatiza a
singularidade absoluta de Cristo. Ele não é apenas mais um enviado de Deus, mas
o Filho único, exclusivo, aquele que compartilha da própria natureza divina. A
incredulidade, portanto, não é neutralidade espiritual, mas uma decisão que
mantém o ser humano afastado da única fonte de redenção. Exegeticamente, João
3.18 revela que a salvação e a condenação estão diretamente ligadas à resposta
humana à revelação de Deus em Cristo. O texto sustenta, ao mesmo tempo, a
iniciativa soberana de Deus e a responsabilidade pessoal do ser humano. A fé
não cria a salvação, mas a recebe; a incredulidade não cria a condenação, mas a
mantém. Assim, o versículo nos confronta com a seriedade do Evangelho: crer em
Cristo é passar da morte para a vida; rejeitá-lo é permanecer, por escolha
própria, sob o juízo que Ele veio precisamente para remover.
RESUMO DA LIÇÃO
A salvação é o dom gracioso de Deus,
precedido pela graça preveniente, e requer do ser humano uma resposta de arrependimento,
fé e perseverança.
ENTENDA O RESUMO DA LIÇÃO:
👉 A salvação tem sua origem exclusiva na iniciativa graciosa de
Deus, que, por meio de sua graça preveniente,
vai ao encontro do ser humano marcado pelo pecado e restaura sua capacidade de
responder ao chamado divino. Embora o livre-arbítrio tenha sido profundamente
afetado pela queda, ele não foi anulado, sendo despertado e capacitado pela
ação do Espírito Santo. Assim, a fé salvadora não nasce do esforço humano, mas
da resposta consciente e responsável à revelação de Deus em Cristo. Crer ou
rejeitar o Filho define a permanência na condenação ou a passagem para a vida.
A experiência da salvação, portanto, envolve arrependimento, fé e uma
perseverança diária, na qual o crente, sustentado pela graça, continua
escolhendo viver em obediência e comunhão com Deus.
A graça preveniente é a ação
antecipadora de Deus pela qual Ele se aproxima do ser humano antes de qualquer
decisão consciente, despertando-o espiritualmente e tornando possível a
resposta ao Evangelho. O termo “preveniente” vem do latim praevenire, que
significa “vir antes”. Trata-se, portanto, da graça que precede o
arrependimento, a fé e a conversão.
À luz das Escrituras, a
graça preveniente responde a um problema central da condição humana. O ser
humano, por causa do pecado, está espiritualmente morto e incapaz de buscar a
Deus por si mesmo (Rm 3.10–12; Ef 2.1). Isso não significa ausência de vontade,
mas uma vontade inclinada e limitada pelo pecado. A graça preveniente é a
intervenção divina que ilumina a mente, sensibiliza a consciência e inclina o
coração, sem anular o livre-arbítrio. Jesus afirmou que ninguém pode vir a Ele
se o Pai não o atrair (Jo 6.44). Essa atração não é coerção, mas convite
eficaz. Teologicamente, a tradição arminiana e pentecostal entende que essa
graça é universal, resistível e suficiente. Universal, porque Deus deseja que
todos sejam salvos (1Tm 2.4) e Cristo morreu por todos. Resistível, porque o
ser humano pode rejeitar essa ação graciosa, como mostram as advertências
bíblicas contra endurecer o coração (Hb 3.7–8). Suficiente, porque ela restaura
a capacidade real de responder a Deus com arrependimento e fé. Stanley Horton
observa que a graça preveniente “não salva automaticamente, mas torna a
salvação possível ao despertar a resposta humana”. Do ponto de vista
bíblico-pastoral, a graça preveniente se manifesta de muitas formas. Ela age
por meio da Palavra proclamada, da atuação do Espírito Santo, da consciência
moral, das circunstâncias da vida e do testemunho da igreja. É ela que
incomoda, confronta, chama e convida. Quando alguém sente convicção do pecado
ou desejo sincero de mudança, isso já é evidência da graça de Deus em ação,
antes mesmo da conversão. Na prática cristã, compreender a graça preveniente
gera humildade e responsabilidade. Humildade, porque ninguém se converte por
mérito próprio. Responsabilidade, porque a resposta ao chamado divino não pode
ser adiada nem desprezada. A salvação começa com Deus, mas não acontece sem a
resposta humana. A graça preveniente, portanto, revela um Deus que busca
primeiro, chama com amor e capacita o ser humano a dizer “sim” ou “não”. E é
exatamente nesse ponto que a fé deixa de ser teoria e se torna decisão.
TEXTO BÍBLICO
Deuteronômio 30.15-20; João 1.6-14.
Observação
editorial: os
comentários abaixo não são citações literais, mas sínteses teológicas fiéis às
linhas interpretativas das obras citadas.
15 Vês aqui, hoje te tenho proposto a vida e o bem, a morte e o mal;
👉
Palavras-chave: vida, bem, morte, mal Deus apresenta
a Israel duas realidades opostas e excludentes. A linguagem é ética e
relacional, não meramente biológica. “Vida” aqui significa comunhão, bênção e
alinhamento com a vontade divina; “morte” aponta para ruptura da aliança e
afastamento de Deus. O texto estabelece que a obediência e a desobediência
produzem consequências reais.
16 porquanto te ordeno, hoje, que ames o Senhor, teu Deus, que andes nos
seus caminhos e que guardes os seus mandamentos, e os seus estatutos, e os seus
juízos, para que vivas e te multipliques, e o Senhor, teu Deus, te abençoe na
terra, a qual passas a possuir.
👉
Palavras-chave: amar, andar, guardar A obediência
não é mecânica, mas relacional. Amar ao Senhor precede o andar nos seus
caminhos. A vida prometida não é fruto de mérito, mas da fidelidade à aliança.
O versículo mostra que a escolha pela vida envolve afeição, conduta e submissão
à revelação de Deus.
17 Porém, se o teu coração se desviar, e não quiseres dar ouvidos, e fores
seduzido para te inclinares a outros deuses, e os servires,
👉
Palavras-chave: coração, desviar, não ouvires O
problema central é o coração. O desvio não começa na ação externa, mas na
disposição interior. A idolatria aparece como consequência da recusa em ouvir a
voz de Deus. O texto revela que a infidelidade é sempre precedida por uma
escolha interna.
18 então, eu te denuncio, hoje, que, certamente, perecerás; não
prolongarás os dias na terra a que vais, passando o Jordão, para que, entrando
nela, a possuas.
👉
Palavras-chave: perecer, não prolongareis Moisés
adverte de forma solene. A vida na terra prometida está condicionada à
fidelidade à aliança. A graça que liberta Israel do Egito não elimina a
responsabilidade do povo. A bênção da permanência está ligada à resposta
contínua à vontade de Deus.
19 Os céus e a terra tomo, hoje, por testemunhas contra ti, que te tenho
proposto a vida e a morte, a bênção e a maldição; escolhe, pois, a vida, para
que vivas, tu e a tua semente,
👉
Palavras-chave: testemunhas, escolhe, vida A
convocação de testemunhas cósmicas reforça a seriedade da decisão. Deus chama o
povo a escolher conscientemente. A ordem “escolhe, pois, a vida” mostra que a
graça não anula a responsabilidade humana, mas a convoca. A escolha pela vida
beneficia não apenas o indivíduo, mas as gerações futuras.
20 amando ao Senhor, teu Deus, dando ouvidos à sua voz e te achegando a
ele; pois ele é a tua vida e a longura dos teus dias; para que fiques na terra
que o Senhor jurou a teus pais, a Abraão, a Isaque e a Jacó, que lhes havia de
dar.
👉
Palavras-chave: amar, obedecer, apegar-se A vida
está diretamente ligada ao relacionamento com Deus. O verbo “apegar-se” indica
fidelidade contínua e lealdade perseverante. Deus não é apenas o doador da
vida; Ele próprio é a vida do seu povo. A obediência aqui é expressão de
comunhão, não de legalismo.
João 1
6 Houve um homem enviado de Deus, cujo nome era João.
👉
Palavras-chave: enviado, Deus João Batista é
apresentado como instrumento divino, não como origem da revelação. Sua
autoridade vem do envio de Deus, destacando o princípio bíblico de que Deus age
por meio de mensageiros para preparar o coração humano.
7 Este veio para testemunho para que testificasse da luz, para que todos
cressem por ele.
👉
Palavras-chave: testemunho, crer O objetivo do
testemunho é a fé. A expressão “para que todos cressem” revela a dimensão
universal do chamado. A fé não é imposta, mas convidada, despertada pelo
anúncio da luz.
8 Não era ele a luz, mas veio para que testificasse da luz.
👉
Palavras-chave: não era, luz João Batista não é o
objeto da fé, mas o apontador. O texto previne qualquer confusão entre o
mensageiro e o Messias. Toda liderança espiritual legítima conduz à luz, não a
si mesma.
9 Ali estava a luz verdadeira, que alumia a todo homem que vem ao mundo,
👉
Palavras-chave: verdadeira luz, todo homem Cristo é
a revelação plena e definitiva de Deus. A iluminação é universal em alcance,
mas não automaticamente salvadora. A luz alcança a todos, tornando possível a
resposta de fé ou a rejeição consciente.
10 estava no mundo, e o mundo foi feito por ele e o mundo não o conheceu.
👉
Palavras-chave: mundo, não conheceu Apesar da
presença do Verbo na criação, o mundo caiu não o reconhece. O termo “mundo”
(kósmos) indica a humanidade em rebelião. A ignorância aqui é moral e
espiritual, não intelectual.
11 Veio para o que era seu, e os seus não o receberam.
👉
Palavras-chave: seus, não receberam Refere-se,
primariamente, a Israel. A rejeição não ocorre por falta de promessa, mas
apesar dela. O texto evidencia a responsabilidade humana diante da revelação
histórica de Deus.
12 Mas a todos quantos o receberam deu-lhes o poder de serem feitos filhos
de Deus: aos que creem no seu nome,
👉
Palavras-chave: receber, crer, poder Receber e crer
são ações complementares. O “poder” de se tornar filho de Deus não é inerente
ao ser humano, mas concedido pela graça mediante a fé. Aqui se afirma
claramente a resposta humana habilitada pela ação divina.
13 os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da
vontade do varão, mas de Deus.
👉
Palavras-chave: não, mas, Deus A nova filiação não é
resultado de herança étnica, esforço humano ou decisão autônoma. A salvação tem
origem divina. O versículo preserva a soberania de Deus sem negar a necessidade
da fé apresentada no versículo anterior.
14 E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como
a glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.
👉
Palavras-chave: Verbo, carne, glória, graça, verdade A
encarnação é o ápice da revelação. Deus se torna acessível, visível e
relacional. “Graça e verdade” resumem o caráter da obra de Cristo: graça que
salva e verdade que confronta. A resposta humana à luz encarnada define o destino
eterno.
Síntese Teológica dos Textos
👉
Ambos os textos revelam que Deus toma a iniciativa graciosa de
se revelar, iluminar e chamar, mas convoca o ser humano a uma resposta
consciente. A escolha é real, as consequências são sérias e a graça é o
fundamento que torna essa resposta possível. A Escritura mantém, assim, a
harmonia entre soberania divina e responsabilidade humana, eixo central da
Lição 9.
INTRODUÇÃO
O livre-arbítrio é um dom de Deus que compõe a dignidade humana. Por
meio dele, o ser humano não é um robô, mas um ser moral, dotado de consciência
e capacidade de decisão entre o bem e o mal. No entanto, o pecado corrompeu a
capacidade humana de escolher o bem espiritual. Por isso, conforme a tradição
pentecostal ensina, cremos que o ser humano necessita da graça de Deus antes,
durante e depois da conversão, para crer, obedecer e perseverar na presença do
Senhor, fazendo a sua vontade. Nesta lição, refletiremos a respeito da
responsabilidade humana diante da salvação, bem como sobre o papel da graça
preveniente, que restaura a nossa capacidade de responder positivamente ao
chamado de Deus.
👉
Se a salvação é inteiramente obra de Deus, por que a Escritura
insiste em nos chamar a escolher, crer, arrepender-nos e perseverar? Essa
tensão atravessa toda a narrativa bíblica e toca o coração da experiência
cristã. Desde o Éden até o chamado final do Apocalipse, Deus fala com seres
humanos que não são peças de um mecanismo espiritual, mas pessoas responsáveis,
convocadas a responder à sua voz. Pensar o livre-arbítrio à luz da salvação não
é um exercício abstrato, mas uma questão pastoral que molda nossa compreensão
de Deus, do pecado e da fé. A Bíblia apresenta o livre-arbítrio como parte da
dignidade da criação humana. Criados à imagem de Deus, fomos dotados de
consciência, vontade e capacidade de decisão moral. No entanto, essa liberdade
não permaneceu intacta. O pecado não apenas introduziu a culpa, mas afetou
profundamente nossa disposição interior, inclinando o coração para longe de
Deus. O ser humano continua escolhendo, mas já não escolhe com neutralidade
espiritual. Essa realidade impede tanto o otimismo ingênuo sobre a bondade
humana quanto o fatalismo que nega qualquer responsabilidade pessoal diante do
chamado divino.
É
nesse cenário que a graça de Deus se manifesta de forma antecipada e
misericordiosa. A tradição bíblica e teológica que abraçamos afirma que Deus
não aguarda passivamente que o pecador se volte a Ele por conta própria. Pelo
contrário, Ele toma a iniciativa, ilumina o entendimento, desperta a
consciência e confronta o coração. Essa ação graciosa, conhecida como graça
preveniente, não elimina a necessidade da resposta humana, mas a torna
possível. Sem ela, o convite do Evangelho ecoaria em um coração incapaz de
ouvi-lo de modo salvador. Nesta lição, refletiremos sobre como a Escritura
mantém unidos dois elementos que nunca devem ser separados: a soberania
graciosa de Deus e a responsabilidade real do ser humano. Veremos como o
chamado bíblico à escolha, tão evidente em textos como Deuteronômio 30 e João
1, não contradiz a doutrina da graça, mas a pressupõe. A fé não nasce do
esforço humano, mas também não ocorre sem o envolvimento consciente da vontade
despertada por Deus.
Ao
longo do estudo, examinaremos o sentido do livre-arbítrio como dom criacional,
sua corrupção pelo pecado, a necessidade absoluta da graça preveniente e o
chamado contínuo à perseverança. O objetivo não é alimentar disputas teóricas,
mas conduzir-nos a uma compreensão mais profunda da salvação como encontro
entre a iniciativa amorosa de Deus e a resposta responsável do ser humano.
Trata-se de aprender a ouvir o chamado divino e, pela graça, continuar dizendo
“sim” a Ele com fé, obediência e perseverança.
I. O LIVRE-ARBÍTRIO: UM DOM DE DEUS
1. O que é livre-arbítrio? Por livre-arbítrio entendemos ser a capacidade, concedida por Deus ao
homem, de fazer escolhas conscientes e voluntárias entre o bem e o mal, bem
como de obedecer ou rejeitar a vontade divina. Nesse sentido, como vimos na
Lição 2, o livro de Gênesis relata que o homem recebeu de Deus o dom do
livre-arbítrio. O Criador o formou com intelecto, consciência moral e vontade —
elementos que constituem sua dignidade como pessoa humana (Gn 1.26). Nessa
perspectiva, o ser humano é portador da imagem de Deus (Gn 1.27). No entanto,
embora a imagem de Deus no homem tenha sido gravemente distorcida, ela não foi
aniquilada. Em Cristo, essa imagem pode ser plenamente restaurada, tornando o
ser humano capaz de responder com um “sim” a Deus.
👉
O relato bíblico da criação não começa com um ser humano
programado, mas com uma pessoa chamada a responder a Deus. Ao afirmar que o
homem foi criado à imagem e semelhança do Criador, a Escritura estabelece desde
o início a dignidade moral da humanidade. Essa imagem envolve razão,
consciência e vontade. Em Gênesis 1.26–27, o texto não descreve apenas funções,
mas identidade. O ser humano foi criado capaz de ouvir, discernir e responder.
A fé bíblica nasce nesse terreno relacional. Deus fala, e o homem é convocado a
responder. Sem essa capacidade, a própria ideia de obediência, amor e comunhão
perderia sentido. Biblicamente, o que chamamos de livre-arbítrio refere-se à
capacidade de agir de forma consciente e voluntária diante de alternativas
reais. No Antigo Testamento, isso se expressa no chamado constante à escolha.
Em Deuteronômio 30.19, Deus não simula uma decisão; Ele a exige. No Novo
Testamento, essa mesma realidade aparece no verbo grego pisteúō crer, que
envolve confiança deliberada e adesão pessoal. Como observam Stanley Horton e
French Arrington, a fé, na perspectiva bíblica, nunca é um reflexo automático
da natureza humana, mas uma resposta despertada pela graça e exercida pela
vontade¹. O livre-arbítrio, portanto, não é autonomia absoluta, mas agência
moral responsável diante de Deus. Entretanto, a Escritura também é clara ao
afirmar que o pecado afetou profundamente essa capacidade. A vontade humana não
foi destruída, mas corrompida. O problema não é a ausência de escolhas, mas a
inclinação do coração. Jeremias 17.9 descreve essa condição com precisão
espiritual. O ser humano continua escolhendo, mas agora inclinado ao mal. Aqui
reside um ponto essencial da teologia pentecostal clássica. Não cremos em um
otimismo antropológico ingênuo, nem em um determinismo que esvazia a
responsabilidade humana. Como afirma Anthony Palma, a queda não anulou a imagem
de Deus, mas distorceu sua funcionalidade moral². Por isso, a restauração não
pode vir do próprio homem. É nesse contexto que a graça preveniente se torna
indispensável. Deus age antes da decisão humana, iluminando o entendimento,
despertando a consciência e capacitando a resposta. João 1.9 afirma que Cristo
é a luz que ilumina a todos. Essa iluminação não salva automaticamente, mas
torna possível a fé. Jacobus Arminius insistia que a graça é absolutamente
necessária para qualquer movimento em direção a Deus, mas que essa mesma graça
não viola a vontade humana³. A maioria dos cristãos ao longo da história
manteve essa convicção. Deus chama de forma eficaz, mas não coercitiva. A
resposta continua sendo pessoal, consciente e responsável. Em contraste com
essa compreensão, alguns propõem a ideia de livre agência, afirmando que o ser
humano age livremente apenas dentro de um decreto soberano imutável. Essa
posição enfatiza corretamente a soberania divina, mas levanta sérias questões
pastorais e bíblicas. Se toda decisão já está fixada, o chamado bíblico ao
arrependimento perde sua força moral. A perspectiva arminiana, acolhida pela
tradição pentecostal, preserva melhor o testemunho integral das Escrituras.
Deus é soberano. A graça é indispensável. Mas o ser humano é verdadeiramente
convocado a responder. Essa verdade nos confronta e nos consola. Não somos
salvos por nós mesmos, nem somos meros espectadores da graça. Somos chamados,
pela graça, a dizer “sim” a Deus todos os dias.
1. HORTON, Stanley M. Teologia Sistemática Pentecostal. Rio de
Janeiro: CPAD, 1996.
2. ARRINGTON, French L. Doutrinas Bíblicas: Uma Teologia
Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2015.
3. PALMA, Anthony D. The Holy Spirit: A Pentecostal Perspective.
Springfield: Gospel Publishing House, 2001.
4. BERKOF, Louis. Teologia Sistemática. São Paulo: Cultura
Cristã, 2012.
5. KEENER, Craig S. Comentário Histórico-Cultural do Novo
Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2017.
6. COMENTÁRIO BÍBLICO PENTECOSTAL DO NOVO TESTAMENTO. Rio de
Janeiro: CPAD, 2014.
7. BÍBLIA DE ESTUDO PENTECOSTAL. Edição Global. Rio de Janeiro:
CPAD, 2022.
8. LONGMAN III, Tremper (Ed.). Dicionário Bíblico Baker. Rio de
Janeiro: CPAD, 2023.
2. A corrupção total da natureza humana. O pecado corrompeu o ser humano em
toda a sua natureza — corpo, alma e espírito —, o que significa que o
intelecto, as emoções, a vontade, a consciência e a liberdade foram
profundamente afetadas (Is 1.3,5,6; Jr 17.9; Ef 4.18). Essa realidade nos
mostra que, sem a graça divina, o ser humano é incapaz de escolher o bem
espiritual. Na verdade, é algo impossível! Por isso, Deus age previamente, de
forma graciosa, preparando o coração e restaurando essa capacidade pela sua
graça. Desde o Antigo Testamento, e de modo culminante no Novo Testamento, com
a obra de Cristo e a vinda do Espírito Santo, Deus opera por meio de sua graça
para conduzir o ser humano de volta ao caminho da retidão e da justiça perdido
no Éden.
👉
A Escritura não trata o pecado como um simples erro de percurso,
mas como uma ruptura profunda que atingiu o ser humano em sua totalidade.
Isaías descreve essa condição como uma enfermidade espiritual que vai da cabeça
aos pés. Jeremias afirma que o coração se tornou enganoso. Paulo declara que o
entendimento foi obscurecido. Esses textos não falam de partes isoladas da
pessoa, mas de uma corrupção que alcança mente, afetos, vontade e consciência.
A Bíblia, portanto, não sustenta a ideia de que o ser humano permaneceu
espiritualmente neutro após a queda. Ele continua humano, racional e moral, mas
agora profundamente inclinado para longe de Deus. Essa doutrina é conhecida, na
teologia, como corrupção total. Importa esclarecer que ela não significa que o
ser humano seja tão mau quanto poderia ser, mas que todas as dimensões do seu
ser foram afetadas pelo pecado. Louis Berkhof observa que a queda não destruiu
as faculdades humanas, mas perverteu sua orientação espiritual¹. O problema não
é a ausência de vontade, mas a incapacidade dessa vontade de mover-se, por si
só, em direção a Deus. O coração continua escolhendo, mas escolhe a partir de
um amor desordenado, incapaz de desejar o bem espiritual supremo. Paulo
descreve essa condição ao afirmar que o entendimento ficou obscurecido e
separado da vida de Deus. O termo grego usado em Efésios 4.18, skotizó, indica
envolvimento em trevas, não simples ignorância intelectual. Trata-se de uma
cegueira moral e espiritual. Por isso, sem a intervenção divina, o ser humano
não apenas não escolhe a Deus, como não consegue sequer perceber adequadamente
a beleza do Evangelho. A incapacidade espiritual não é psicológica, mas
teológica. É uma alienação profunda da vida que procede de Deus. Aqui emerge a
necessidade absoluta da graça. Deus não espera que o ser humano dê o primeiro
passo a partir de sua própria condição caída. Ele age antes. Essa ação
graciosa, chamada de graça preveniente, antecede qualquer movimento humano em
direção à salvação. Como ensina Stanley Horton, é essa graça que desperta a
consciência, ilumina o entendimento e restaura a capacidade de responder ao
chamado divino². Sem ela, a ordem bíblica “arrependam-se e creiam” seria apenas
uma exigência impossível. Com ela, o chamado torna-se real e responsável. Desde
o Antigo Testamento, essa graça já estava em operação. Deus chama, adverte,
atrai e confronta o coração humano. No Novo Testamento, essa ação alcança sua
plenitude na obra redentora de Cristo e na atuação do Espírito Santo, que
convence do pecado, da justiça e do juízo. A teologia pentecostal clássica
afirma, com equilíbrio bíblico, que Deus é quem inicia o processo da salvação,
mas não anula a resposta humana. O pecador não é salvo sem a graça, mas também
não é salvo sem responder a ela. Essa verdade nos humilha, porque não podemos
nos salvar. E nos responsabiliza, porque não podemos ignorar o chamado de Deus
que, em graça, nos alcança hoje.
1. BERKOF, Louis. Teologia Sistemática. São Paulo: Cultura
Cristã, 2012.
2. HORTON, Stanley M. Teologia Sistemática Pentecostal. Rio de
Janeiro: CPAD, 1996.
3. COMENTÁRIO BÍBLICO PENTECOSTAL DO NOVO TESTAMENTO. Rio de
Janeiro: CPAD, 2014.
4. BÍBLIA DE ESTUDO PENTECOSTAL. Edição Global. Rio de Janeiro:
CPAD, 2022.
5. CHAMPLIN, Russell Norman. O Novo Testamento Interpretado
Versículo por Versículo. São Paulo: Hagnos, 2014.
6. LONGMAN III, Tremper (Ed.). Dicionário Bíblico Baker. Rio de
Janeiro: CPAD, 2023.
3. Responsabilidade humana. Na Bíblia, lemos claramente sobre Deus chamando pessoas a uma decisão
consciente (Js 24.15). Em Deuteronômio 30, o Criador coloca diante do povo o
caminho da vida e o caminho da morte, o caminho do bem e o do mal, e o convida
a escolher. Ao longo da jornada no deserto, conforme relata o Pentateuco, Deus
operou graciosamente a libertação do povo de Israel. Aquelas pessoas
testemunharam a manifestação da graça divina diante de seus olhos e, assim,
encontravam-se em condições de responder com um “sim” ou “não” ao Senhor —
infelizmente, mais tarde, rejeitaram o Senhor (Dt 30.19,20). De forma
semelhante, o Evangelho de João afirma que a Luz resplandeceu nas trevas (Jo
1.7-9). Contudo, o mundo permaneceu indiferente à sua manifestação e se opôs à
sua mensagem. Aqueles que eram seus não o receberam (Jo 1.10,11). No entanto,
aos que o receberam voluntariamente — isto é, os que creram nEle — foi
concedido o poder de se tornarem filhos de Deus, nascidos da vontade divina (Jo
1.12,13). Essa graça preveniente restaura a capacidade do ser humano de
responder com fé e dizer “sim” ao seu Criador.
👉
A Bíblia não trata a responsabilidade humana como um detalhe
secundário, mas como parte essencial do relacionamento entre Deus e o ser
humano. Desde o Antigo Testamento, o Senhor se dirige a pessoas reais,
chamando-as a decisões conscientes. Quando Josué declara “escolham hoje a quem
irão servir” (Js 24.15, NVI), ele não encena um discurso retórico. Ele convoca
o povo a uma resposta concreta diante da revelação e da graça já
experimentadas. A fé bíblica sempre nasce nesse encontro entre a iniciativa
divina e a resposta humana, jamais em um vácuo moral ou espiritual. Em
Deuteronômio 30, esse chamado atinge um nível impressionante de clareza
teológica. Deus coloca diante do povo a vida e a morte, o bem e o mal, e
ordena: “Escolham a vida” (Dt 30.19, NVI). O verbo hebraico bāḥar escolher
expressa uma decisão deliberada, ponderada e responsável. Israel não estava
espiritualmente neutro, mas havia sido alcançado pela graça libertadora do
Êxodo. A escolha, portanto, não era para conquistar a redenção, mas para
responder a ela. Como observa Antonio Gilberto, pioneiro da educação teológica
assembleiana, a graça de Deus nunca elimina a obediência, mas a exige como resposta
amorosa¹. Essa mesma lógica atravessa o Novo Testamento. O Evangelho de João
afirma que a luz verdadeira veio ao mundo e iluminou a todos os homens (Jo
1.9). O termo grego phōs luz não indica apenas informação, mas revelação que
expõe, confronta e chama à decisão. Ainda assim, João afirma que “os seus não o
receberam” (Jo 1.11, NVI). A rejeição da luz não decorre da ausência de graça,
mas da recusa humana em acolhê-la. Aqui, a responsabilidade não é diluída. O
ser humano é chamado a responder à revelação que lhe foi concedida. A teologia
arminiana clássica, abraçada historicamente pelo movimento pentecostal, afirma
que essa resposta só é possível porque a graça preveniente restaura a
capacidade humana de crer. Jacobus Arminius defendia que o ser humano está
espiritualmente incapacitado sem a graça, mas verdadeiramente responsável
quando essa graça o alcança². Crer, no Novo Testamento, traduz o verbo grego
pisteúō, que envolve confiança pessoal e entrega consciente. Como ensina
Stanley Horton, a fé não é imposta por Deus, mas possibilitada por Ele³. O ser
humano pode resistir à graça ou render-se a ela. A teologia reformada, por sua
vez, também afirma a responsabilidade humana, mas a compreende de forma
distinta. Para essa tradição, o ser humano age voluntariamente, porém suas
decisões estão sob a determinação soberana de Deus. Louis Berkhof sustenta que
o homem escolhe conforme seus desejos, ainda que esses desejos estejam
condicionados por sua natureza caída⁴. Assim, a responsabilidade é preservada no
nível da ação consciente, embora a iniciativa salvadora seja entendida como
irresistível para os eleitos. Essa perspectiva ressalta fortemente a soberania
divina, mas levanta questões pastorais importantes sobre o chamado universal ao
arrependimento. A tradição pentecostal clássica, dialogando com a teologia
reformada, mantém uma posição de equilíbrio bíblico. Deus é soberano. A
salvação começa, progride e se consuma pela graça. Contudo, essa mesma graça
não anula o apelo bíblico à resposta humana. Craig Keener observa que, no
Evangelho de João, a fé é sempre apresentada como resposta exigida diante da
revelação de Deus em Cristo⁵. Aos que o recebem, Deus concede o direito de se
tornarem filhos. Aos que rejeitam, permanece a responsabilidade pela incredulidade.
Essa compreensão tem profundas implicações pastorais. Ninguém é salvo sem a
graça. Ninguém é condenado sem rejeitá-la. A responsabilidade humana não é peso
opressor, mas dignidade restaurada. Deus leva nossas escolhas a sério porque
nos criou para o relacionamento. A vida cristã começa com um “sim” ao chamado
de Deus e se sustenta por uma série de decisões diárias de fidelidade. Essa
verdade confronta nossa passividade espiritual e nos chama a viver uma fé
consciente, obediente e perseverante diante de um Deus que, em graça, continua
nos chamando hoje.
1. GILBERTO, Antonio. Lições Bíblicas: Fundamentos da Fé Cristã.
Rio de Janeiro: CPAD, 2018.
2. ARMINIUS, Jacobus. The Works of James Arminius. Grand Rapids:
Baker, 1996.
3. HORTON, Stanley M. Teologia Sistemática Pentecostal. Rio de
Janeiro: CPAD, 1996.
4. BERKOF, Louis. Teologia Sistemática. São Paulo: Cultura
Cristã, 2012.
5. KEENER, Craig S. Comentário Histórico-Cultural do Novo
Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2017.
6. COMENTÁRIO BÍBLICO PENTECOSTAL DO NOVO TESTAMENTO. Rio de
Janeiro: CPAD, 2014.
7. BÍBLIA DE ESTUDO PENTECOSTAL. Edição Global. Rio de Janeiro:
CPAD, 2022.
8. LONGMAN III, Tremper (Ed.). Dicionário Bíblico Baker. Rio de
Janeiro: CPAD, 2023.
SUBSÍDIO I
Professor(a), um bom exemplo a
respeito desta escolha que Deus permite ao homem fazer, está registrada em
Deuteronômio 30.19,20. “Moisés desafiou Israel a escolher a vida, ao obedecer a
Deus e a continuar a receber suas bênçãos. Deus não impõe sua vontade a ninguém.
Ele permite que decidamos se queremos aceitá-lo ou rejeitá-lo. No entanto, esta
decisão é uma questão de vida ou morte. Deus deseja que compreendamos isto,
pois quer que todos optem pela vida. Diariamente, em cada nova situação,
precisamos afirmar e fortalecer este compromisso!” (Adaptado de Bíblia de
Estudo Aplicação Pessoal. Rio de Janeiro: CPAD, 2004, p.268).
II. A NECESSIDADE DA GRAÇA
1. A vontade humana corrompida. A Bíblia mostra que o ser humano ficou naturalmente inclinado ao mal,
embora não tenha perdido a capacidade de fazer escolhas de natureza moral.
Contudo, como vimos, para escolher o bem espiritual, o ser humano não pode
contar apenas com seu intelecto e arbítrio. É preciso mais do que isso. A
história revela que, por meio da observação natural, o ser humano pode chegar à
conclusão da existência de Deus (Rm 1.20). É o que, em Teologia, denominados de
“teologia natural” ou “revelação geral”. No entanto, é impossível alcançar a
salvação e, ao mesmo tempo, ter um relacionamento com Deus, apenas contemplando
a criação de modo geral. É necessária uma graça especial, pela qual o coração
humano seja profundamente tocado pela revelação divina, tal como nos é apresentado
na bendita pessoa de Jesus Cristo e na ação do Espírito Santo (Jo 3.16; Jo
16.8). É o que, em teologia, denominamos de “revelação especial”.
👉
A Escritura é honesta ao diagnosticar a condição humana após a
queda. O ser humano continua capaz de escolher, decidir e agir moralmente, mas
passou a fazê-lo a partir de um coração inclinado ao mal. Essa inclinação não
elimina a vontade, mas compromete sua direção. Paulo afirma que a mente humana
pode perceber vestígios do Criador na criação, pois “os atributos invisíveis de
Deus são claramente vistos desde a criação do mundo” (Rm 1.20, NVI). Ainda
assim, essa percepção não conduz, por si só, à comunhão salvadora com Deus. Há
conhecimento, mas não reconciliação. Há consciência, mas não regeneração.
A
teologia chama essa capacidade de percepção de revelação geral ou teologia
natural. Ela é suficiente para tornar o ser humano indesculpável diante de
Deus, mas incapaz de salvá-lo. Louis Berkhof observa que a revelação geral
revela o poder e a divindade de Deus, mas não revela o caminho da redenção¹. O
problema não está na criação, que continua proclamando a glória de Deus, mas no
coração humano, que interpreta essa revelação a partir de sua condição caída. O
ser humano pode concluir que Deus existe, mas não consegue, sem auxílio divino,
amar esse Deus, confiar nele e submeter-se à sua vontade salvadora.
Essa
limitação revela algo essencial sobre a vontade humana. Ela é real, mas
insuficiente. O intelecto percebe. A consciência acusa. A vontade decide. Contudo,
nenhuma dessas faculdades consegue, isoladamente, produzir fé salvadora. O
termo grego usado em João 3.16 para crer, pisteúō, não descreve mera aceitação
racional, mas confiança relacional e entrega pessoal. Essa fé não nasce do
esforço humano, mas de um coração alcançado por algo que vem de fora. A vontade
precisa ser despertada, iluminada e atraída.
É
aqui que a Escritura introduz a necessidade da revelação especial. Deus não
apenas se deixa perceber na criação, mas se dá a conhecer plenamente em Jesus
Cristo. “Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito” (Jo
3.16, NVI). Essa revelação não é apenas informativa, é transformadora. Ela
envolve a encarnação do Verbo e a ação contínua do Espírito Santo. Em João
16.8, Jesus afirma que o Espírito convence do pecado, da justiça e do juízo. O
verbo grego eléghō indica confronto interior, exposição da verdade que alcança
a consciência e rompe a resistência do coração.
A
teologia pentecostal clássica identifica essa ação divina como graça preveniente,
uma graça que antecede a decisão humana. Stanley Horton explica que essa graça
não salva automaticamente, mas torna a salvação possível ao restaurar a
capacidade de resposta do pecador². Ela não violenta a vontade, mas a liberta
de sua paralisia espiritual. O ser humano continua responsável, mas agora
verdadeiramente capaz de responder. Essa compreensão preserva tanto a gravidade
do pecado quanto a profundidade da graça.
Pastoralmente,
essa doutrina nos protege de dois extremos perigosos. De um lado, o orgulho
espiritual, que imagina que a fé nasce da inteligência ou da força moral. De
outro, o desespero, que supõe que ninguém pode responder ao chamado de Deus. A
revelação especial nos lembra que Deus fala, age e se aproxima. A vontade
humana, tocada pela graça, pode ouvir, arrepender-se e crer. Essa verdade nos
chama à humildade e à resposta. Não somos salvos por contemplar a criação, mas
por encontrar o Criador revelado em Cristo. E esse encontro, sempre iniciado
pela graça, exige de nós uma decisão viva e obediente hoje.
1. BERKOF, Louis. Teologia Sistemática. São Paulo: Cultura
Cristã, 2012.
2. HORTON, Stanley M. Teologia Sistemática Pentecostal. Rio de
Janeiro: CPAD, 1996.
3. COMENTÁRIO BÍBLICO PENTECOSTAL DO NOVO TESTAMENTO. Rio de
Janeiro: CPAD, 2014.
4. KEENER, Craig S. Comentário Histórico-Cultural do Novo
Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2017.
5. CHAMPLIN, Russell Norman. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e
Filosofia. São Paulo: Hagnos, 2013.
6. LONGMAN III, Tremper (Ed.). Dicionário Bíblico Baker. Rio de
Janeiro: CPAD, 2023.
2. O que é a graça preveniente? Graça preveniente é uma expressão teológica que se refere à ação
amorosa e soberana de Deus, cujo propósito é despertar o coração do pecador
para a grandeza de sua misericórdia e amor. Trata-se de uma graça que antecede
a conversão, sendo ela que capacita o ser humano a arrepender-se e a crer em
Jesus Cristo para a salvação. Essa ação graciosa de Deus não salva
automaticamente, mas torna a salvação possível. Nesse sentido, essa graça é universal,
pois abre o caminho para que todos possam ser salvos (Jo 1.9; Tt 2.11); é
suficiente, pois torna eficaz a obra da salvação na vida dos que se arrependem
e creem em Cristo (Jo 16.8); mas não é irresistível, já que o coração do
pecador pode se endurecer e recusar o amor de Deus (At 7.51; Mt 23.37). Essa
doutrina mostra que, embora o ser humano esteja espiritualmente morto por causa
do pecado (Ef 2.1), Deus, por sua iniciativa, move-se em direção ao pecador com
graça, convidando-o à vida (Ap 3.20).
👉
Antes que o ser humano pense em Deus, Deus já está em movimento
em direção ao ser humano. Essa é a convicção central da doutrina da graça
preveniente. O termo descreve a iniciativa amorosa e soberana de Deus que
antecede qualquer resposta humana. Não nasce do mérito do pecador, mas do
caráter gracioso do Criador. A Escritura revela um Deus que chama, busca e se
aproxima. Mesmo quando o coração está obscurecido pelo pecado, Deus fala
primeiro. Essa verdade preserva a glória divina e, ao mesmo tempo, fundamenta a
responsabilidade humana.
Biblicamente,
essa graça é vista como iluminação espiritual. João afirma que Cristo é “a
verdadeira luz, que ilumina todos os homens” (Jo 1.9, NVI). O verbo grego
phōtízō indica trazer luz onde antes havia escuridão. Não se trata ainda de
salvação consumada, mas de um esclarecimento interior que torna o pecador
consciente de sua condição e da oferta de redenção. Stanley Horton observa que
essa iluminação não converte automaticamente, mas desperta a consciência para
que a fé seja uma resposta real e responsável¹. A graça não substitui a
decisão, mas a torna possível.
Essa
ação graciosa é universal em alcance, mas pessoal em sua aplicação. Paulo
declara que “a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens” (Tt
2.11, NVI). Isso não significa universalismo, mas disponibilidade universal.
Deus não exclui ninguém de antemão. A graça preveniente alcança a todos,
removendo impedimentos espirituais e convidando cada pessoa ao arrependimento.
Contudo, como ensina a tradição arminiana clássica, essa graça é resistível.
Ela pode ser acolhida ou rejeitada. Atos 7.51 mostra homens que resistem ao
Espírito Santo, evidenciando que a ação divina não anula a liberdade humana.
Ao
mesmo tempo, essa graça é suficiente e eficaz naqueles que respondem com fé.
Jesus afirmou que o Espírito Santo convenceria o mundo do pecado, da justiça e
do juízo (Jo 16.8, NVI). O verbo grego eléghō comunica a ideia de confrontar
profundamente, expor a verdade de modo pessoal. Esse convencimento não é superficial.
Ele alcança a consciência e confronta o coração. Louis Berkhof reconhece que,
sem essa operação interna da graça, o ser humano jamais se voltaria
espontaneamente para Deus². A suficiência da graça não está em sua
irresistibilidade, mas em sua capacidade real de conduzir à fé salvadora quando
acolhida.
Essa
doutrina nos ensina a olhar o mundo com esperança e humildade. Mesmo
espiritualmente morto em delitos e pecados (Ef 2.1), o ser humano não está
abandonado. Deus bate à porta, chama pelo nome e convida à vida (Ap 3.20). A
graça preveniente revela um Deus que respeita a liberdade que Ele mesmo
concedeu, mas não desiste do pecador. Ela nos chama à responsabilidade. Se Deus
já está agindo, a pergunta não é se Ele chama, mas se responderemos. Essa verdade
confronta, consola e inspira uma fé viva, consciente e obediente.
1. HORTON, Stanley M. Teologia Sistemática Pentecostal. Rio de
Janeiro: CPAD, 1996.
2. BERKOF, Louis. Teologia Sistemática. São Paulo: Cultura
Cristã, 2012.
3. COMENTÁRIO BÍBLICO PENTECOSTAL DO NOVO TESTAMENTO. Rio de
Janeiro: CPAD, 2014.
4. KEENER, Craig S. Comentário Histórico-Cultural do Novo
Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2017.
5. CHAMPLIN, Russell Norman. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e
Filosofia. São Paulo: Hagnos, 2013.
6. LONGMAN III, Tremper (Ed.). Dicionário Bíblico Baker. Rio de
Janeiro: CPAD, 2023.
3. Como essa graça opera? No Antigo Testamento, Deus operou essa graça por meio de sua revelação
a homens como Enoque, Noé e, especialmente, por meio da eleição de Abraão e da
formação de um povo para representá-lo na terra (Gn 12). Essa foi a graça em
ação na Antiga Aliança. Na Nova Aliança, essa mesma graça opera por meio da
obra redentora de Cristo no Calvário, que trouxe luz a todos os homens (Jo
1.9). Ela é aplicada pela atuação do Espírito Santo, que convence o mundo do
pecado, da justiça e do juízo (Jo 16.8). Assim, o Deus Triúno age de forma
antecipada, graciosa e soberana, habilitando o ser humano a responder com fé à
oferta da salvação. Essa graça ilumina o entendimento, toca a consciência e
desperta o pecador ao arrependimento, preparando o coração a fim de que creia
para a salvação. A pessoa pode ignorá-la ou render-se e atendê-la. Portanto,
pela sua graça, Deus acende a luz da salvação em nosso interior, mas cabe a
cada um de nós dar o passo da fé e seguir por esse caminho que conduz à vida
eterna.
👉
Desde as primeiras páginas da Escritura, Deus não permanece em
silêncio diante da humanidade caída. Ele se revela, chama e se aproxima antes
que o ser humano demonstre qualquer iniciativa espiritual. No Antigo
Testamento, essa graça se manifesta de forma progressiva e pedagógica. Homens
como Enoque e Noé não descobriram Deus por intuição moral, mas responderam a um
Deus que se revelou e os chamou para andar com Ele. A eleição de Abraão, em
Gênesis 12, é ainda mais clara. Deus toma a iniciativa, promete, chama e envia.
Como destacam Berkhof e Horton, a eleição não elimina a resposta humana, mas
cria o ambiente gracioso no qual a fé se torna possível¹. A graça antecede a
fé, mas não a substitui.
Essa
mesma dinâmica continua na Nova Aliança, agora de forma plena e definitiva em
Cristo. João afirma que Jesus é “a verdadeira luz, que ilumina todos os homens”
(Jo 1.9, NVI). O verbo grego phōtízō aponta para uma iluminação espiritual
real, que rompe as trevas do entendimento. Não se trata ainda da regeneração,
mas de uma ação divina que remove a cegueira espiritual inicial. Craig Keener
observa que essa luz expõe a verdade sobre Deus e sobre o ser humano, criando a
possibilidade concreta de uma resposta consciente ao Evangelho². A cruz não
apenas garante a salvação, mas inaugura uma nova realidade espiritual acessível
a todos.
Essa
graça é aplicada pessoalmente pelo Espírito Santo. Jesus declarou que Ele
convenceria o mundo do pecado, da justiça e do juízo (Jo 16.8, NVI). O termo
grego eléghō descreve uma confrontação interna, profunda e pessoal. O Espírito
não apenas informa, Ele persuade, desperta e inquieta a consciência. Stanley
Horton afirma que essa obra não força a conversão, mas cria uma tensão santa no
coração humano, tornando impossível a neutralidade espiritual³. O pecador passa
a saber que precisa decidir. Permanecer indiferente já é, em si, uma resposta.
Aqui
percebemos claramente a ação do Deus Triúno na salvação. O Pai chama, o Filho
ilumina e o Espírito convence. Essa graça atua de maneira antecipada, graciosa
e soberana, sem violar a liberdade humana. Ela restaura a capacidade espiritual
perdida pela queda, permitindo que o ser humano responda com fé. Como ensina a
teologia pentecostal clássica, o coração é tocado, o entendimento é iluminado e
a vontade é despertada, mas não coagida. O amor divino chama, mas não
constrange. O convite é real, e a resposta também.
Essa
verdade nos confronta e nos consola. Deus acende a luz da salvação no interior
do ser humano, mas não caminha por ele. A graça abre os olhos, mas a fé dá o
passo. Ignorá-la é endurecer o coração. Acolhê-la é entrar no caminho da vida
eterna. Essa doutrina nos livra do orgulho, porque ninguém se salva por mérito
próprio, e nos livra da passividade, porque ninguém é salvo sem responder. A
pergunta permanece diante de cada jovem, todos os dias. O que você fará com a
luz que Deus já acendeu em seu coração?
1. BERKOF, Louis. Teologia Sistemática. São Paulo: Cultura
Cristã, 2012.
2. KEENER, Craig S. Comentário Histórico-Cultural do Novo
Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2017.
3. HORTON, Stanley M. Teologia Sistemática Pentecostal. Rio de
Janeiro: CPAD, 1996.
4. COMENTÁRIO BÍBLICO PENTECOSTAL DO NOVO TESTAMENTO. Rio de
Janeiro: CPAD, 2014.
5. CHAMPLIN, Russell Norman. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e
Filosofia. São Paulo: Hagnos, 2013.
6. LONGMAN III, Tremper (Ed.). Dicionário Bíblico Baker. Rio de
Janeiro: CPAD, 2023.
SUBSÍDIO II
Professor(a), neste tópico, explique
aos alunos que “Graça preveniente nada mais é, portanto, do que o amor de Deus
em ação; é Deus tomando a iniciativa em relação ao homem caído, e não apenas no
sentido de propiciar a sua salvação, mas também no sentido de habilitá-lo a
recebê-la e atraí-lo a ela. É ela que concede ao ser humano a possibilidade de
corresponder livremente com arrependimento e fé quando Deus o atrai a si. É a
graça preveniente que possibilita ao homem responder positivamente ao chamado
divino”. (DANIEL, Silas. Arminianismo: a mecânica da salvação. Rio de Janeiro:
CPAD, 2017, p.367).
III. SALVAÇÃO: UMA ESCOLHA CAPACITADA PELA GRAÇA
1. A salvação é um dom gracioso. A salvação é um dom gracioso de Deus, oferecido
livremente a todos os homens por meio de Jesus Cristo (Ef 2.8,9; Tt 2.11). Esse
dom não é imposto, mas exige uma resposta humana marcada por arrependimento e
fé (Mc 1.15; At 20.21). Essa resposta revela o exercício verdadeiro do
livre-arbítrio, pois o pecador, tocado pela graça, escolhe voluntariamente o
que lhe cabe: render-se ao chamado divino (Rm 10.9,10). Apenas o homem, e não
Deus, pode render-se, arrepender-se e crer. Essa entrega deve ser consciente,
decidida e pessoal, que demonstra não apenas o mover de Deus, mas também a
responsabilidade humana, auxiliada pela graça, diante da salvação (Js 24.15).
Assim, a salvação é, ao mesmo tempo, obra divina e resposta humana, ambas
cooperando sob a soberania da graça.
👉
A Escritura afirma com clareza que a salvação nasce no coração
gracioso de Deus e não na iniciativa humana. Paulo ensina que somos salvos
“pela graça, por meio da fé” e que isso “não vem de vocês, é dom de Deus” (Ef
2.8,9, NVI). O termo grego cháris aponta para um favor imerecido, livremente
concedido, que encontra sua expressão máxima na obra redentora de Cristo. Tito
2.11 reforça essa verdade ao declarar que essa graça salvadora se manifestou a
todos os homens. A salvação, portanto, não é privilégio de alguns, nem
recompensa por esforço moral, mas oferta universal fundamentada exclusivamente
no amor divino, como afirmam Horton e Arrington ao tratarem da natureza
inclusiva da graça no pensamento pentecostal clássico¹.
Entretanto,
esse dom não opera de maneira automática ou coercitiva. O mesmo Evangelho que
anuncia a graça proclama também o chamado ao arrependimento e à fé. Jesus
inicia seu ministério com um imperativo claro. “Arrependam-se e creiam no
evangelho” (Mc 1.15, NVI). O arrependimento, do grego metánoia, indica uma
mudança profunda de mente, direção e lealdade. A fé, por sua vez, não é mero
assentimento intelectual, mas confiança pessoal e entrega existencial. Como
observa Gordon Fee, a fé bíblica sempre envolve resposta, compromisso e
obediência, jamais passividade espiritual².
Nesse
ponto, o livre-arbítrio restaurado pela graça entra em ação. O ser humano,
incapacitado pelo pecado, é alcançado pela graça preveniente que desperta,
ilumina e convence. A partir desse agir divino, torna-se realmente capaz de
responder. Romanos 10.9,10 deixa claro que a confissão e a fé procedem do
coração e da boca do indivíduo. Essa resposta não é produzida por Deus em lugar
do homem. Apenas o ser humano pode arrepender-se e crer. Deus chama, persuade e
capacita, mas não substitui a decisão pessoal. Stanley Horton afirma que a
graça torna a fé possível, mas nunca a impõe³.
Essa
dinâmica revela uma verdade teológica profunda e pastoralmente equilibrada. A
salvação é inteiramente obra de Deus quanto à provisão, mas envolve
responsabilidade humana quanto à apropriação. Josué 24.15 expressa essa tensão
saudável ao colocar diante do povo a necessidade da escolha. “Escolham hoje a
quem irão servir” (NVI). A graça não elimina a escolha. Pelo contrário, ela a
torna significativa. Aqui se evita tanto o orgulho humano quanto o determinismo
fatalista. Não somos salvos por mérito, mas também não somos tratados como
marionetes espirituais.
Por
fim, essa compreensão transforma a vida cristã prática. Se a salvação é graça,
não há espaço para vanglória. Se ela exige resposta, não há lugar para
indiferença. Cada jovem é chamado a viver diariamente essa fé que começou no
arrependimento e continua na obediência. A soberania da graça não anula a
responsabilidade da perseverança. Pelo contrário, ela a sustenta. A salvação é,
assim, um encontro santo entre o Deus que chama e o ser humano que responde.
Quando essa verdade é compreendida, a fé deixa de ser apenas doutrina e
torna-se caminho vivido, consciente e transformador.
1. HORTON, Stanley M. Teologia Sistemática Pentecostal. Rio de
Janeiro: CPAD, 1996.
2. FEE, Gordon D. Paulo, o Espírito e o Povo de Deus. São Paulo:
Vida Nova, 2014.
3. ARRINGTON, French L. Doutrinas Cristãs Pentecostais. Rio de
Janeiro: CPAD, 2010.
4. BERKOF, Louis. Teologia Sistemática. São Paulo: Cultura
Cristã, 2012.
5. COMENTÁRIO BÍBLICO PENTECOSTAL DO NOVO TESTAMENTO. Rio de
Janeiro: CPAD, 2014.
6. LONGMAN III, Tremper (Ed.). Dicionário Bíblico Baker. Rio de
Janeiro: CPAD, 2023.
2. Perseverança e livre-arbítrio. Após a conversão, dotado de livre-arbítrio, o
cristão é chamado a perseverar voluntariamente na fé. A Bíblia adverte que é
possível afastar-se de Deus, como mostra a exortação contra o coração incrédulo
e desviado (Hb 3.12) e o risco real de decair da graça (Gl 5.4). A nova vida em
Cristo exige decisões diárias de fidelidade, pois andar com o Senhor requer continuidade
e firmeza (Cl 2.6). Perseverar é viver em obediência ativa, respondendo à graça
com temor e responsabilidade (Fp 2.12,13). Trata-se de um compromisso constante
com a verdade do Evangelho, sustentado pela graça, mas exercido com a vontade
livre e regenerada. O crente deve, portanto, escolher todos os dias andar com
Cristo, negando a si mesmo e tomando sua cruz (Lc 9.23). Perseverar é escolher,
pela graça, continuar dizendo “sim” ao chamado de Deus.
👉
A salvação que começa pela graça não anula a responsabilidade
que acompanha a vida cristã. Após a conversão, o crente não perde o
livre-arbítrio, mas passa a exercê-lo agora sob a iluminação do Espírito e a
direção da Palavra. A fé salvadora inaugura uma nova caminhada, e não um estado
automático de segurança desconectado da obediência. A Escritura é clara ao
advertir sobre o perigo de um coração que se torna incrédulo e se afasta do
Deus vivo (Hb 3.12, NVI). O verbo grego aphístēmi carrega a ideia de
afastamento deliberado, não de um tropeço ocasional. Isso revela que a
perseverança envolve decisões conscientes e contínuas.
O
apóstolo Paulo reforça essa realidade ao alertar os gálatas sobre o risco real
de “decair da graça” (Gl 5.4, NVI). Longe de ser uma expressão retórica,
trata-se de uma advertência pastoral séria. Como observam Arrington e Horton,
essa possibilidade não diminui o poder da graça, mas evidencia que a relação
salvífica é pessoal e relacional, não mecânica¹. A graça não falha, mas pode
ser rejeitada. A perseverança, portanto, não é uma condição opcional da fé, mas
parte essencial de sua autenticidade.
Viver
em Cristo exige continuidade. Paulo exorta os colossenses dizendo. “Assim como
vocês receberam Cristo Jesus, o Senhor, continuem a viver nele” (Cl 2.6, NVI).
O mesmo verbo que descreve o início da fé aponta também para sua manutenção.
Receber e andar pertencem à mesma dinâmica espiritual. Gordon Fee destaca que,
no Novo Testamento, fé e perseverança caminham juntas, pois a fé que não
persevera revela-se incompleta². O discipulado cristão se constrói nas escolhas
diárias, muitas vezes silenciosas, mas espiritualmente decisivas.
Essa
perseverança não é fruto do esforço humano isolado. Paulo equilibra
responsabilidade e graça ao afirmar que devemos desenvolver nossa salvação com
temor e tremor, pois é Deus quem efetua em nós tanto o querer quanto o realizar
(Fp 2.12,13, NVI). O verbo katergázomai indica um processo contínuo, não a
produção da salvação, mas sua vivência prática. Deus age interiormente, mas o
crente responde exteriormente. Aqui se encontra um dos pontos mais belos da
teologia pentecostal clássica. A graça sustenta, impulsiona e fortalece, mas
não substitui a obediência.
Por
isso, perseverar é, em última análise, escolher diariamente permanecer em
Cristo. Jesus foi claro ao afirmar que segui-lo envolve negar a si mesmo e
tomar a cruz todos os dias (Lc 9.23, NVI). A perseverança não se limita a
resistir ao pecado, mas a continuar dizendo “sim” à vontade de Deus em meio às
pressões, dúvidas e desafios da vida. Essa verdade confronta o comodismo
espiritual e consola o coração sincero. A graça está disponível todos os dias.
A pergunta é se continuaremos respondendo a ela. Perseverar é viver uma fé que
escolhe permanecer, amar e obedecer até o fim.
1. ARRINGTON, French L. Doutrinas Cristãs Pentecostais. Rio de
Janeiro: CPAD, 2010.
2. HORTON, Stanley M. Teologia Sistemática Pentecostal. Rio de
Janeiro: CPAD, 1996.
3. FEE, Gordon D. Paulo, o Espírito e o Povo de Deus. São Paulo:
Vida Nova, 2014.
4. BERKOF, Louis. Teologia Sistemática. São Paulo: Cultura
Cristã, 2012.
5. COMENTÁRIO BÍBLICO PENTECOSTAL DO NOVO TESTAMENTO. Rio de
Janeiro: CPAD, 2014.
6. LONGMAN III, Tremper (Ed.). Dicionário Bíblico Baker. Rio de
Janeiro: CPAD, 2023.
SUBSÍDIO III
Professor(a), neste tópico chamamos a
atenção para a perseverança. Explique aos alunos que “Perseverar até o fim não
é uma forma de alcançar a salvação, mas a evidência de que a pessoa está
realmente comprometida com Jesus. A perseverança não é um meio de se alcançar a
salvação, mas a consequência de uma vida de verdadeira devoção a Deus”.
(Adaptado de Bíblia de Estudo Aplicação Pessoal. Rio de Janeiro: CPAD, 2004,
p.1239).
CONCLUSÃO
O livre-arbítrio é um dom que Deus
concedeu ao ser humano como parte de sua dignidade. Embora o pecado tenha
afetado profundamente a natureza humana, a graça divina, manifesta em Cristo e
aplicada pelo Espírito Santo, restaura a capacidade humana de responder ao
chamado de salvação com arrependimento e fé. Essa salvação é oferecida a todos,
mas requer uma resposta voluntária e consciente. No entanto, após a conversão,
o crente permanece livre e é chamado a perseverar diariamente, escolhendo andar
com Cristo em fidelidade. A vida cristã não é automática: é um caminho de
decisões constantes, sustentadas pela graça, mas trilhado com responsabilidade.
👉
O objetivo desta lição nunca foi apenas esclarecer conceitos,
mas formar discípulos conscientes. Quando colocamos lado a lado o
livre-arbítrio, a corrupção humana, a graça preveniente e a perseverança,
enxergamos um todo coerente. Deus age primeiro, sustenta sempre e chama
continuamente. O ser humano responde, decide e caminha. Essa união entre a
iniciativa soberana da graça e a responsabilidade pessoal é o que torna a fé
cristã viva, relacional e transformadora. A salvação não é um evento isolado do
passado, mas um caminho presente, onde cada escolha diária confirma a direção
do coração.
O
valor central aprendido aqui é simples e profundo. A graça não elimina sua
responsabilidade; ela a torna possível. Você não obedece para ser salvo, mas
porque foi alcançado pela graça. E não persevera por medo de perder algo, mas
por amor Àquele que o chamou. Ignorar essa verdade gera passividade espiritual.
Abraçá-la produz maturidade, vigilância e crescimento. Em seis meses, um cristão
que entende e pratica essa dinâmica experimenta uma fé mais estável, decisões
mais alinhadas ao Evangelho e uma consciência sensível à voz do Espírito. Quem
ignora isso tende a viver uma fé automática, frágil e facilmente desviável.
Primeiros
passos práticos para hoje
1.
Examine suas escolhas diárias. Pergunte-se onde você tem terceirizado decisões
espirituais que Deus espera que você assuma.
2.
Estabeleça práticas simples de perseverança. Palavra, oração e comunhão não
como obrigação, mas como respostas conscientes à graça.
3.
Trate o pecado com seriedade imediata. A perseverança começa em pequenas
renúncias diárias.
4.
Ore com intencionalidade. Peça ao Espírito Santo não apenas força, mas
sensibilidade para escolher bem.
O
futuro da sua vida cristã não será definido apenas pelo que Deus faz, mas por
como você responde ao que Ele já está fazendo. A graça abre o caminho, mas são
as suas escolhas que determinam se você continuará andando nele. O conhecimento
que não se transforma em obediência apenas informa; a verdade vivida
transforma. A pergunta final não é se você entende o livre-arbítrio, mas o que
você fará com ele hoje.
FRANCISCO BARBOSA (@pr.assis)
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• Graduado em Gestão Pública;
• Teologia pelo Seminário Martin Bucer (S.J.C./SP);
• Bacharel Ministerial em Teologia pelo Instituto de Formação FATEB;
• Curso Superior Sequencial em Teologia Bíblica, pelo Instituto de
Formação FATEB;
• Pós-Graduado em Teologia Bíblica e Exegese do Novo Testamento, pela
Faculdade Cidade Viva (J.P./PB);
• Pós-Graduado em Psicanálise Clínica na Abordagem Cristã, pelo
Instituto de Formação FATEB;
• Professor de Escola Dominical desde 1994 (AD Cuiabá/MT, 1994-1998; AD
Belém/PA, 1999-2001; AD Pelotas/RS, 2001-2004; AD São Caetano do Sul/SP, 2005-2009;
AD Recife/PE (Abreu e Lima), 2010-2014; Igreja Cristo no Brasil, Campina
Grande/PB, desde 2015).
• Pastor em tempo integral (voluntário) da Igreja de Cristo no Brasil em
Campina Grande/PB servo, barro nas mãos do Oleiro.]
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HORA DA REVISÃO
1. O que é livre-arbítrio?
Por livre-arbítrio entendemos ser a
capacidade, concedida por Deus ao homem, de fazer escolhas conscientes e
voluntárias entre o bem e o mal, bem como de obedecer ou rejeitar a vontade
divina.
2. O que é a graça preveniente?
Graça preveniente é uma expressão
teológica que se refere à ação amorosa e soberana de Deus, cujo propósito é
despertar o coração do pecador para a grandeza de sua misericórdia e amor.
3. Como a graça preveniente opera?
Trata-se de uma graça que antecede a
conversão, sendo ela que capacita o ser humano a arrepender-se e a crer em
Jesus Cristo para a salvação.
4. Como é marcada a resposta humana ao dom gracioso da salvação?
Por arrependimento e fé.
5. Após a conversão, dotado de livre-arbítrio, o que o crente é chamado a
fazer?
Após a conversão, dotado de
livre-arbítrio, o cristão é chamado a perseverar voluntariamente na fé.