LIÇÕES BÍBLICAS CPAD
JOVENS
1º Trimestre de 2026
Título: Plano Perfeito — A salvação da
Humanidade, a mensagem central das Escrituras
Comentarista: Marcelo Oliveira
Lição 7: A Graça de Deus
Data: ´15 de fevereiro de 2026
TEXTO PRINCIPAL
“Porque
pela graça sois salvos, por meio da fé; e isso não vem de vós; é dom de Deus.
Não vem das obras, para que ninguém se glorie.” (Ef 2.8,9).
ENTENDA O TEXTO PRINCIPAL:
👉 Efésios 2.8–9 não pode ser interpretado isoladamente. Ele é o
clímax teológico do argumento iniciado em Efésios 2.1, onde Paulo descreve a
condição humana antes da salvação: mortos espiritualmente, escravizados pelo
pecado e sob a ira divina. Nos versículos 4–7, ocorre a virada decisiva com a
expressão “Mas Deus”, revelando a iniciativa soberana da graça. Assim, os
versículos 8–9 funcionam como uma síntese doutrinária, resumindo a natureza, o
meio e o propósito da salvação. Paulo escreve a uma igreja composta
majoritariamente por gentios, cercada por influências religiosas legalistas,
místicas e meritórias. Seu objetivo é deixar claro que a salvação cristã não
nasce do esforço humano nem da observância de sistemas religiosos, mas
exclusivamente da ação graciosa de Deus em Cristo. Porque pela graça sois salvos
a causa da salvação O termo grego traduzido por “graça” é χάριτι (cháriti),
dativo instrumental de cháris, indicando o meio ou a causa eficiente da
salvação. Graça, aqui, não é apenas benevolência genérica, mas o favor soberano
e imerecido de Deus, que age em favor de quem nada podia oferecer em troca. A
expressão “sois salvos” (ἐστε σεσῳσμένοι – este sesōsmenoi) está no tempo
perfeito, indicando uma ação passada com efeitos permanentes. Isso significa
que:
a
salvação foi realizada definitivamente por Deus;
seus
efeitos continuam operando na vida do crente.
Logo, Paulo ensina que a salvação não
é um processo iniciado pelo homem e concluído por Deus, mas uma obra iniciada,
sustentada e consumada pela graça divina. Por meio da fé o instrumento, não a
causa A fé (πίστεως – pisteōs) é apresentada como o meio instrumental, não como
a origem da salvação. Paulo não diz “por causa da fé”, mas “por meio da fé”.
Isso é crucial teologicamente. A fé:
não
é mérito;
não
é obra;
não
é pagamento espiritual.
Ela é a resposta humana à iniciativa
graciosa de Deus, o canal pelo qual a graça é recebida. Conforme o ensino
bíblico mais amplo (Rm 10.17), a fé nasce da Palavra e é despertada pela ação
do Espírito Santo. Assim, a fé não compete com a graça; ela depende dela. E isso não vem de vós; é dom de Deus a
origem divina da salvação A expressão “isso” (τοῦτο – touto) tem sido
amplamente debatida. Gramaticalmente, o pronome neutro aponta não apenas para
“a fé” isoladamente, mas para todo o processo da salvação pela graça mediante a
fé. Nada nesse processo tem origem no ser humano. A iniciativa é de Deus O
plano é de Deus O meio é estabelecido por Deus O resultado glorifica a Deus. A
salvação é chamada explicitamente de “dom” (δῶρον – dōron), um presente
gratuito, não negociável, não conquistável. Um dom, por definição, exclui
mérito e exige humildade daquele que o recebe. Não vem das obras a
exclusão total do mérito humano O termo “obras” vem do grego ἔργων (érgōn),
referindo-se a qualquer esforço humano com pretensão de justificar-se diante de
Deus, sejam obras da Lei, práticas religiosas, rituais ou moralidade externa. Paulo
não está desvalorizando as boas obras em si (isso será corrigido no v.10), mas
negando radicalmente sua função salvífica. Nenhuma obra:
remove
o pecado,
produz
regeneração,
compra
o favor divino.
Aqui, o apóstolo desmonta qualquer
sistema de salvação baseado em desempenho espiritual. Para que ninguém se glorie
o propósito final. O objetivo último da salvação pela graça é eliminar toda
possibilidade de vanglória humana. O verbo “gloriar-se” (καυχήσηται –
kauchēsētai) está ligado à exaltação própria, ao orgulho religioso. Deus
estruturou a salvação de modo que:
ninguém
possa dizer “eu consegui”;
ninguém
possa reivindicar superioridade espiritual;
toda
a glória pertença exclusivamente a Ele.
Isso prepara o terreno para o
versículo 10, onde Paulo mostra que as boas obras não são a causa da salvação,
mas o resultado inevitável dela.
SÍNTESE
TEOLÓGICA
Efésios 2.8–9 ensina que:
A
graça é a causa da salvação
A
fé é o meio pelo qual essa graça é recebida
O
dom é totalmente de Deus
As
obras são excluídas como meio salvífico
A
glória pertence somente ao Senhor
Essa passagem estabelece um fundamento
sólido para uma fé humilde, obediente e transformada. A salvação não anula a
responsabilidade cristã, mas a fundamenta corretamente: não vivemos bem para
sermos salvos; vivemos bem porque fomos salvos. Assim, Efésios 2.8–9 não apenas
explica como somos salvos, mas redefine completamente a maneira como o cristão
entende sua identidade, sua obediência e sua relação com Deus.
RESUMO DA LIÇÃO
A salvação pela graça é um presente
imerecido de Deus, que transforma o cristão para que viva refletindo essa graça
em boas obras, amor, perdão e serviço aos outros.
ENTENDA O RESUMO DA LIÇÃO:
👉 Se a salvação é realmente pela graça, por que ela nunca deixa
ninguém do mesmo jeito? Essa pergunta nos conduz ao coração do ensino bíblico
apresentado em Efésios 2.1–10 e exposto nesta lição. A graça de Deus não é
apenas um conceito teológico abstrato nem um simples “ato jurídico” ocorrido no
passado; ela é a ação soberana, misericordiosa e transformadora de Deus que
irrompe na história humana para resgatar pecadores espiritualmente mortos e
inseri-los em uma nova realidade em Cristo. A salvação pela graça revela que
Deus age antes de qualquer iniciativa humana. Mortos em delitos e pecados,
incapazes de responder por nós mesmos, fomos alcançados não por mérito, obras
ou desempenho religioso, mas pelo amor gracioso de Deus, manifestado em Cristo
Jesus. Essa graça não apenas perdoa o pecado e remove a culpa, mas regenera o
coração, concede nova identidade e inaugura um novo modo de viver. Assim, a fé
não é uma conquista humana, mas a resposta despertada pela própria graça
divina, que nos conduz a confiar plenamente na obra redentora de Cristo. Entretanto,
essa salvação graciosa nunca é estéril. O mesmo Deus que nos salva
gratuitamente nos recria para um propósito: vivermos como expressão visível de
Sua graça no mundo. As boas obras, longe de serem o meio da salvação, tornam-se
seu fruto inevitável. Amor, perdão, santidade e serviço deixam de ser meras
exigências morais e passam a ser respostas naturais de uma vida transformada. A
graça que justifica é a mesma que santifica, capacitando o cristão a viver de
forma coerente com o Evangelho, não por obrigação legalista, mas por gratidão e
obediência amorosa. Portanto, esta lição nos conduz a compreender que a
salvação pela graça é, ao mesmo tempo, um dom imerecido e um chamado profundo.
Somos alcançados pela misericórdia de Deus para vivermos de maneira que reflita
Seu caráter, Sua bondade e Seu amor. A graça que nos salvou nos envia ao mundo
para sermos testemunhas vivas dessa mesma graça, manifestando-a em atitudes
concretas que glorificam a Deus e edificam o próximo.
TEXTO BÍBLICO
Efésios 2.1-10.
Observação
editorial: os
comentários abaixo não são citações literais, mas sínteses teológicas fiéis às
linhas interpretativas das obras citadas.
1 E vos vivificou, estando vós mortos em ofensas e pecados,
👉 Paulo apresenta a condição universal da humanidade sem Cristo:
espiritualmente mortos. A morte aqui não é biológica, mas separação total de
Deus, incapacidade espiritual e incapacidade de responder a Deus. A morte
espiritual não é uma metáfora menor, mas representa incapacidade total de
iniciar qualquer movimento em direção a Deus, um estado que reflete a justiça
de Deus contra o pecado (conceito apontado por MacArthur e estudiosos
reformados como base antropológica da salvação pela graça).
2 em que, noutro tempo, andastes, segundo o curso deste mundo, segundo o
príncipe das potestades do ar, do espírito que, agora, opera nos filhos da
desobediência;
👉 Aqui Paulo identifica a vida
anterior à salvação: aqueles “mortos” não são inacessíveis à moralidade
secular, mas viviam alinhados com os valores do mundo e sob influência do
“governante do poder do ar”, isto é, a realidade cósmica hostil a Deus (ser
revelado mais claramente como Satanás em Ef 6.12). A expressão “andar”
(peripateō) descreve o estilo de vida habitual, um caminhar
conformado com o sistema do mundo, não como uma fase isolada.
3 entre os quais todos nós também, antes, andávamos nos desejos da nossa
carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos por natureza
filhos da ira, como os outros também.
👉 Paulo inclui a si mesmo (“nós”) para lembrar que judeus ou
gentios estavam igualmente sob a condenação: dominados pelo desejo da carne e
pela mentalidade carnal (sarx/dianoia). Eles eram “filhos da ira”, isto é,
pertencentes à esfera da ira justificada de Deus devido ao pecado (maciça
ênfase em depravação total e justiça divina), um ponto frequentemente
ressaltado por MacArthur e pelas Bíblias de estudo tradicionais como marco da
depravação humana sem Cristo.
4 Mas Deus, que é riquíssimo em misericórdia, pelo seu muito amor com que
nos amou,
👉 Este é o momento central da mensagem: Deus, motivado por Sua
misericórdia e amor, interrompe a situação desesperadora do homem e dá nova
vida. “Rico em misericórdia” aponta para o caráter de Deus antes de qualquer
resposta humana. “Vivificou… juntamente com Cristo” enfatiza que a salvação
está unida à obra de Cristo, o crente participa da nova vida que Cristo
conquistou. No nível teológico, isso afirma o princípio da soteriologia
cristocêntrica: nenhum humano se vivifica por si mesmo, mas Deus por graça
efetua a regeneração em Cristo (MacArthur em suas notas sobre Efésios destaca
esta “nova vida” como início de uma nova criação em Cristo).
5 estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente
com Cristo (pela graça sois salvos),
6 e nos ressuscitou juntamente com ele, e nos fez assentar nos lugares
celestiais, em Cristo Jesus;
👉 A imagem de ser resuscitado e assentado nas regiões celestiais
com Cristo não apenas descreve a salvação presente, mas a realidade já iniciada
da nova criação (unificação do crente com Cristo). Isso aponta à posição
espiritual do crente, não apenas perdão de pecados, mas uma união real com
Cristo em Sua vitória e autoridade.
7 para mostrar nos séculos vindouros as abundantes riquezas da sua graça,
pela sua benignidade para conosco em Cristo Jesus.
👉
Paulo sublinha o propósito eterno dessa salvação: deus quer
exibir a riqueza da graça. Não é algo escondido, mas destinado a ser
manifestado para sempre. A graça não apenas salva, mas se revela eterna, rica e
inesgotável, um tema central da teologia paulina sobre salvação e eleição
presentes em Efésios 1.
8 Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isso não vem de vós; é
dom de Deus.
👉
Este verso é um dos textos-chave da teologia cristã reformada:
“Pela graça”: a causa eficiente da
salvação é Deus — não o homem.
“Mediante a fé”: a fé é o instrumento
pelo qual a graça é recebida — não um mérito humano, mas uma resposta
capacitada pela graça. A fé aqui não é obra, mas o meio pelo qual a graça chega
ao crente.
9 Não vem das obras, para que ninguém se glorie.
👉
Paulo reforça que nada na salvação provém de nós: nem fé como
mérito humano, nem qualquer obra. Isso exclui orgulho espiritual e mérito
competitivo. A salvação é um presente absoluto, destinado a exaltar o caráter
soberano de Deus e limitar toda arrogância humana. Comentários derivam do
sentido das expressões paralelas: “não vem de vós” e “não vem das obras” como
ênfase dupla da ausência de mérito humano.
10 Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras,
as quais Deus preparou para que andássemos nelas.
👉 Este verso esclarece a
finalidade da salvação:
Não salvamo-nos pelas obras,
mas somos salvos para boas obras.
O
termo grego poiēma (“obra” ou “poema”) indica que somos a obra-prima
de Deus, moldados por Ele. Deus nos faz novas criaturas em Cristo, não para
meramente “crer”, mas para andar em boas obras que Ele já preparou de antemão.
Isso mostra que a graça transforma nossa natureza, resultando em vida adequada
ao propósito de Deus.
SÍNTESE TEOLÓGICA DO TEXTO
Efésios 2.1–10 desenha um arco
teológico completo da salvação:
Estado anterior de morte espiritual
(v.1–3);
Intervenção graciosa de Deus em
Cristo (v.4–7);
Meio da salvação: graça mediante fé
(v.8–9);
Resultado: nova criação para boas
obras (v.10).
Esse texto integra visão da
depravação humana, da graça soberana de Deus, e da vida transformada como fruto
dessa graça, oferecendo um panorama sólido da doutrina da salvação segundo as
Escrituras, um legado que permeia tanto a tradição reformada quanto a
experiência pentecostal de renovação em Cristo.
INTRODUÇÃO
A graça de Deus é o fundamento da salvação cristã, mas sua importância
vai muito além de um evento passado. A salvação não é apenas algo que aconteceu
uma vez, mas uma realidade contínua que transforma a vida do crente, moldando
seus pensamentos, sentimentos e ações. Entender a graça de Deus não só nos dá
uma nova perspectiva sobre nossa relação com Ele, mas também impacta
diretamente o nosso comportamento diário. Nesta lição, veremos que a graça nos
chama a viver em conformidade com a vontade de Deus, refletindo em nossas
atitudes o amor e o perdão que recebemos. Como cristãos, somos desafiados a
viver essa graça de forma prática, demonstrando-a em nosso relacionamento com
os outros e em nossas decisões diárias.
👉
Se a salvação é totalmente pela graça, por que ainda falamos
tanto sobre esforço, obediência e boas obras na vida cristã? Essa pergunta
revela uma das maiores tensões do pensamento cristão contemporâneo e, ao mesmo
tempo, expõe muitos equívocos sobre o que realmente significa viver pela graça
de Deus. Para muitos, a graça é apenas o “ponto de partida” da fé, o momento da
conversão. Para outros, ela é confundida com permissividade espiritual, como se
anulasse responsabilidade, disciplina e transformação. Contudo, o ensino
bíblico vai muito além dessas reduções. O apóstolo Paulo, em Efésios 2.1–10,
apresenta a graça não apenas como o meio da salvação, mas como o princípio
estruturante de toda a vida cristã. A graça de Deus não entra na história
humana para apenas resolver o problema da culpa do pecado; ela inaugura uma
nova realidade existencial. Mortos espiritualmente, escravizados pelo pecado e
destinados à ira (Ef 2.1–3), fomos alcançados por uma intervenção soberana e
misericordiosa de Deus, que nos vivificou juntamente com Cristo. Essa
iniciativa divina revela que a salvação é completamente imerecida, fruto
exclusivo do amor gracioso de Deus, e não resultado de qualquer mérito humano. Entretanto,
Paulo não encerra seu argumento na justificação. Ele avança e mostra que a
mesma graça que salva é a graça que transforma, educa e envia. Somos salvos
“pela graça, mediante a fé”, mas também somos “feitura dele, criados em Cristo
Jesus para boas obras” (Ef 2.8–10). Assim, a graça não apenas nos livra da
condenação, mas nos reinsere no propósito original de Deus: uma vida que
reflete Sua glória por meio de atitudes concretas de amor, perdão, santidade e
serviço. Não se trata de obras como meio de salvação, mas de obras como fruto
inevitável de uma vida alcançada pela graça. Nesta lição, caminharemos por três
eixos centrais. Primeiro, compreenderemos a obra da graça na salvação,
analisando nossa condição antes de Cristo, a intervenção misericordiosa de Deus
e o propósito transformador da salvação. Em seguida, veremos a relação correta
entre graça e obras, distinguindo claramente mérito humano de resposta
obediente à graça recebida. Por fim, refletiremos sobre as implicações práticas
da graça na vida cristã, mostrando como ela nos capacita a amar, perdoar e
servir de maneira concreta no cotidiano. Ao longo deste estudo, o objetivo não
é apenas ampliar nosso entendimento teológico, mas conduzir-nos a uma fé mais
consciente, humilde e coerente. Afinal, compreender a graça de Deus não é
apenas saber que fomos salvos por ela, mas aprender a viver diariamente sob o
seu governo transformador.
I. A MARAVILHOSA GRAÇA NA OBRA DE SALVAÇÃO
1. A condição humana antes da graça (Ef 2.1-3). Paulo começa este trecho lembrando
aos efésios sobre a condição espiritual anterior à salvação. Os versículos 1 a
3 descrevem a humanidade como “mortos em ofensas e pecados”, vivendo segundo o
curso deste mundo e sob o domínio do pecado. A vida sem Cristo é caracterizada
por uma separação de Deus, sujeita à ira divina. Assim, a pessoa, que ainda não
experimentou a Regeneração, não pode compreender nem aceitar a verdade sem a
obra da graça de Deus. Logo, do ponto de vista bíblico, devemos ter compaixão
pelos pecadores que vivem na imoralidade, no orgulho e na arrogância, pois são
escravos do pecado e do Diabo (Ef 2.1,5). Além disso, precisamos entender que a
nossa condição antes da graça era assim. Por isso, quando reconhecemos a
gravidade do nosso pecado e a morte espiritual em que estávamos, podemos
valorizar a grandeza da graça de Deus. Não merecíamos nada, mas Ele nos
alcançou.
👉
Paulo inicia sua exposição com uma afirmação que confronta
qualquer ilusão de autonomia espiritual. Antes da graça, não estávamos apenas
fracos ou desorientados, mas “mortos em transgressões e pecados” (Ef 2.1, NVI).
O verbo grego nekroús, morto, indica incapacidade total de responder a Deus por
iniciativa própria. Trata-se de morte espiritual real, não simbólica. Essa
condição descreve uma existência marcada pela separação de Deus, pela ausência
de comunhão e pela impossibilidade de produzir vida espiritual. O ser humano,
sem Cristo, não está apenas distante de Deus; está espiritualmente
incapacitado, necessitado de intervenção divina. Essa morte espiritual se
manifesta em um modo de viver. Paulo afirma que andávamos “segundo o curso
deste mundo” (Ef 2.2), expressão que revela conformidade com um sistema de
valores corrompido, hostil a Deus. O termo grego aiṓn aponta para uma mentalidade
moldada por padrões espirituais que normalizam o pecado. Além disso, essa
caminhada acontece sob a influência do “príncipe do poder do ar”, referência
clara à atuação de Satanás na estrutura espiritual deste mundo. Aqui, Paulo nos
lembra que o pecado não é apenas uma falha moral individual, mas também uma
escravidão espiritual que envolve forças invisíveis e reais. No versículo 3, o
apóstolo amplia o diagnóstico e inclui todos, judeus e gentios, ao dizer “entre
os quais também todos nós”. Não há exceções. A expressão “satisfazendo as
vontades da carne e dos pensamentos” revela que o pecado atinge tanto os
desejos quanto a mente. A palavra grega sarx não se refere apenas ao corpo
físico, mas à natureza humana corrompida. Já diánoia aponta para um entendimento
distorcido. Isso significa que o pecado não apenas afeta o que fazemos, mas
também como pensamos. Por isso, Paulo conclui que éramos “por natureza filhos
da ira”, expressão que indica uma condição espiritual, não apenas atos
isolados. Essa realidade exige de nós uma postura bíblica equilibrada. Ao
compreendermos a profundidade da perdição humana, somos impedidos de adotar uma
atitude de superioridade espiritual. A Bíblia nos ensina a ter compaixão dos
que vivem presos ao pecado, não porque ele seja menos grave, mas porque
conhecemos o poder que ele exerce sobre o coração humano. A graça de Deus não
minimiza o pecado; ela o expõe em sua gravidade para, então, revelar a grandeza
da salvação. Como afirma a teologia pentecostal clássica, a consciência da
miséria humana prepara o coração para reconhecer a suficiência da graça divina.
Por fim, Paulo nos convida a um exercício de memória espiritual. “Nós éramos
assim.” Essa lembrança não tem o objetivo de gerar culpa, mas gratidão. Quando
reconhecemos de onde Deus nos tirou, valorizamos mais profundamente o que Ele
fez. Não fomos alcançados porque merecíamos, mas porque Deus é rico em
misericórdia. Essa verdade confronta o orgulho, fortalece a humildade e nos
chama a viver de maneira coerente com a graça que nos tirou da morte para a
vida. A compreensão correta da nossa antiga condição é o solo fértil onde
floresce uma vida cristã marcada por gratidão, dependência e santidade.
1. BERKOF, Louis. Teologia Sistemática. São Paulo: Cultura
Cristã, 2012.
2. HORTON, Stanley M. Teologia Sistemática Pentecostal. Rio de
Janeiro: CPAD, 1996.
3. ARRINGTON, French L. Doutrinas Bíblicas: Uma Perspectiva
Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2015.
4. FEE, Gordon D. Paulo, o Espírito e o Povo de Deus. São Paulo:
Vida Nova, 2014.
5. KEENER, Craig S. Comentário Histórico-Cultural do Novo
Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2017.
6. PALMA, Anthony D. O Espírito Santo: Uma Perspectiva
Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2002.
7. BÍBLIA DE ESTUDO PENTECOSTAL. Edição Global. Rio de Janeiro:
CPAD, 2022.
8. BÍBLIA DE ESTUDO MACARTHUR. Barueri: Thomas Nelson Brasil,
2010.
9. BÍBLIA DE ESTUDO PLENITUDE. Barueri: Sociedade Bíblica do
Brasil, 2008.
10. CHAMPLIN, R. N. O Novo Testamento Interpretado Versículo por
Versículo. São Paulo: Hagnos, 2014.
11. BEACON. Comentário Bíblico Beacon – Novo Testamento. Rio de
Janeiro: CPAD, 2006.
12. LONGMAN III, Tremper (Ed.). Dicionário Bíblico Baker. Rio de
Janeiro: CPAD, 2023.
2. A intervenção da graça de Deus (Ef 2.4-7). A partir do versículo 4, Paulo muda o
tom da mensagem, enfatizando a misericórdia de Deus: “Mas Deus, que é
riquíssimo em misericórdia, [...] nos vivificou juntamente com Cristo (pela
graça sois salvos)” (Ef 2.4,5). Aqui, a graça divina é revelada como
misericórdia que nasce do coração amoroso de Deus para nos arrancar da morte
espiritual e nos trazer para uma nova vida em Cristo. Isso significa que a
graça de Deus é a única razão pela qual passamos da morte para a vida. Esta
mudança radical deve gerar gratidão em nossos corações, pois não fomos salvos
por mérito próprio, mas por seu grande amor e misericórdia. A salvação é um
presente imerecido. Como essa graça tem impactado nossa vida diária?
👉
Tudo muda em Efésios 2.4 com duas palavras que alteram
completamente o destino humano. “Mas Deus”. Até aqui, Paulo descreveu a morte
espiritual, a escravidão do pecado e a justa ira divina. Agora, ele apresenta a
iniciativa soberana de Deus, não provocada por mérito humano, mas fundamentada
em Seu caráter. O apóstolo afirma que Deus é “riquíssimo em misericórdia” (Ef
2.4, NVI). O termo grego éleos aponta para uma compaixão ativa diante da
miséria alheia. Não se trata de pena distante, mas de uma misericórdia que se
move em direção ao pecador para resgatá-lo. A salvação começa em Deus, nasce em
Seu coração e se manifesta por pura graça. Paulo deixa claro que essa
intervenção ocorre quando ainda estávamos mortos. Deus “nos deu vida juntamente
com Cristo” (Ef 2.5). O verbo synezōopoiēsen indica vivificação conjunta, isto
é, uma obra realizada em união com Cristo. Aqui está um ponto essencial da
soteriologia bíblica. A vida espiritual não é despertada pelo esforço humano,
mas concedida por Deus em Cristo. A graça não responde a um movimento inicial
do pecador; ela cria esse movimento. Na perspectiva pentecostal clássica, isso
não elimina a responsabilidade humana, mas afirma que toda resposta de fé é
precedida pela ação graciosa de Deus, que chama, convence e possibilita a
salvação. O apóstolo reforça essa verdade ao declarar, entre parênteses, “pela
graça vocês são salvos” (Ef 2.5). Essa afirmação não é um detalhe secundário,
mas um lembrete intencional. Paulo antecipa qualquer tentativa de atribuir a
salvação ao esforço humano. A graça, cháris, é favor imerecido, mas também
poder transformador. Como ensinam Stanley Horton e French Arrington, essa graça
não apenas perdoa o passado, mas inaugura uma nova realidade espiritual. O
crente não recebe apenas absolvição, recebe vida. Essa vida é real, presente e
relacional, pois está enraizada na comunhão com Cristo vivo.
Nos
versículos 6 e 7, Paulo amplia ainda mais o alcance da graça. Deus não apenas
nos vivificou, mas “nos ressuscitou com Cristo e nos fez assentar nos lugares
celestiais” (Ef 2.6). Essa linguagem aponta para uma nova posição espiritual.
Mesmo vivendo ainda neste mundo, o crente participa, em Cristo, de uma
realidade celestial. Isso revela que a salvação não é apenas libertação do
pecado, mas inclusão no propósito eterno de Deus. O objetivo final dessa obra,
segundo Paulo, é que Deus manifeste “as incomparáveis riquezas da sua graça”
(Ef 2.7). A salvação é, portanto, um testemunho eterno do caráter gracioso de
Deus. Se fomos alcançados quando nada podíamos oferecer, não há espaço para
orgulho espiritual. A graça nos chama à gratidão, à humildade e a uma vida
coerente com aquilo que Deus fez em nós. A intervenção graciosa de Deus não
apenas muda nosso destino eterno, mas redefine nossa maneira de viver hoje.
Jovens que compreendem essa graça não vivem tentando pagar uma dívida, mas
respondendo com amor, obediência e serviço Àquele que, por pura misericórdia,
nos tirou da morte e nos deu vida em Cristo.
1. BERKOF, Louis. Teologia Sistemática. São Paulo: Cultura
Cristã, 2012.
2. HORTON, Stanley M. Teologia Sistemática Pentecostal. Rio de
Janeiro: CPAD, 1996.
3. ARRINGTON, French L. Doutrinas Bíblicas: Uma Perspectiva
Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2015.
4. FEE, Gordon D. Paulo, o Espírito e o Povo de Deus. São Paulo:
Vida Nova, 2014.
5. KEENER, Craig S. Comentário Histórico-Cultural do Novo Testamento.
Rio de Janeiro: CPAD, 2017.
6. PALMA, Anthony D. O Espírito Santo: Uma Perspectiva
Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2002.
7. BÍBLIA DE ESTUDO PENTECOSTAL. Edição Global. Rio de Janeiro:
CPAD, 2022.
8. BÍBLIA DE ESTUDO MACARTHUR. Barueri: Thomas Nelson Brasil,
2010.
9. BÍBLIA DE ESTUDO PLENITUDE. Barueri: Sociedade Bíblica do
Brasil, 2008.
10. CHAMPLIN, R. N. O Novo Testamento Interpretado Versículo por
Versículo. São Paulo: Hagnos, 2014.
11. BEACON. Comentário Bíblico Beacon – Novo Testamento. Rio de
Janeiro: CPAD, 2006.
12. LONGMAN III, Tremper (Ed.). Dicionário Bíblico Baker. Rio de
Janeiro: CPAD, 2023.
3. A graça que nos faz produzir em Cristo (Ef 2.8-10). Nos versículos 8 a 10, Paulo ensina
que somos salvos pela graça, “mediante a fé”, e que isso não vem de nós mesmos,
mas é um “dom de Deus”. Isso significa que Deus concede uma medida de sua graça
para os incrédulos: a de crerem no Senhor Jesus mesmo que essa graça divina
possa ser resistida (Hb 12.15). É importante destacar que não são as obras que
nos salvam, mas a graça de Deus, para que ninguém se glorie. O versículo 10
destaca que fomos “feitos para boas obras”, ou seja, a salvação nos prepara
para viver em conformidade com a vontade de Deus. Assim sendo, a salvação não é
um ponto final, mas o início de uma nova vida em Cristo. Somos chamados para
viver de maneira que reflita a transformação que a graça operou em nós. O
cristão não é salvo pelas obras, mas é salvo para realizar boas obras. Como
estamos vivendo em resposta a essa maravilhosa graça?
👉
A graça de Deus não entra na história humana como um conceito
abstrato, mas como uma intervenção poderosa em favor de pecadores
espiritualmente mortos. Quando Paulo afirma que somos salvos “pela graça, por
meio da fé” (Ef 2.8, NVI), ele está declarando que a iniciativa da salvação
parte inteiramente de Deus. O termo grego cháris aponta para um favor
imerecido, livre e soberano, concedido a quem nada podia oferecer em troca. A
fé, por sua vez, não é apresentada como mérito humano, mas como o meio pelo
qual respondemos à ação graciosa de Deus. Na perspectiva pentecostal clássica e
arminiana, essa graça é oferecida genuinamente a todos, capacitando o ser
humano a crer, ainda que essa ação divina possa ser resistida, como adverte o
autor de Hebreus (Hb 12.15). Aqui já percebemos que a salvação é, ao mesmo
tempo, dom divino e convite responsável. Paulo é cuidadoso ao afirmar que essa
salvação “não vem de vós” e “não vem das obras” (Ef 2.8–9). Ele não desvaloriza
as obras, mas redefine completamente o seu lugar na vida cristã. O problema não
está nas obras em si, mas na tentativa humana de usá-las como fundamento da
justificação diante de Deus. O apóstolo fecha qualquer possibilidade de
vanglória, porque toda autoconfiança religiosa distorce o evangelho. Como
observam os comentaristas pentecostais, a salvação não nasce do esforço humano,
mas da misericórdia divina que alcança o pecador antes mesmo de ele compreender
plenamente sua condição. Isso preserva tanto a glória exclusiva de Deus quanto
a humildade necessária do cristão. O versículo 10 aprofunda essa verdade ao
revelar o propósito da graça. Somos descritos como “feitura” de Deus, palavra
que traduz o grego poiēma, indicando uma obra cuidadosamente produzida, quase
como uma obra-prima. Em Cristo, Deus não apenas perdoa, mas recria. As boas
obras não são improvisos posteriores, mas parte do projeto eterno de Deus para
a vida do salvo. Elas foram “preparadas de antemão”, o que revela
intencionalidade divina e vocação cristã. A graça que salva é a mesma graça que
capacita para uma vida alinhada com a vontade de Deus, em santidade, serviço e
amor prático ao próximo.
Esse
ensino corrige dois extremos comuns entre os jovens cristãos. De um lado, a
ideia de que basta “crer” sem que a vida seja transformada. De outro, a
tentativa de medir espiritualidade pelo desempenho religioso. Paulo nos conduz
por um caminho mais profundo e equilibrado. Não somos salvos pelas obras, mas também
não somos salvos para a inércia espiritual. A fé salvadora se manifesta em uma
vida que produz frutos visíveis, não para conquistar a salvação, mas porque foi
alcançada por ela. Como destaca Gordon Fee, a nova vida no Espírito sempre se
expressa em práticas concretas que refletem o caráter de Cristo. Se fomos
alcançados por uma graça tão profunda, tão intencional e transformadora, como
estamos respondendo a ela no cotidiano? A graça de Deus não encerra a história
da salvação; ela inaugura uma caminhada. Cada escolha, cada atitude e cada
relação se tornam espaço para manifestar essa obra divina em nós. Viver pela
graça é permitir que aquilo que Deus já fez em Cristo continue produzindo
frutos visíveis, para a glória de Deus e para o bem daqueles que caminham
conosco.
SUBSÍDIO I
Professor(a), leia juntamente com os
alunos Efésios 2.8-10. Depois explique que “o Novo Testamento enfatiza o tema
da graça de Deus, por nos ter dado o seu Filho, Jesus, que de bom grado e
voluntariamente deu a sua vida por pecadores que não mereciam esse seu ato.
Hoje, os cristãos continuam a receber essa graça, pela presença e orientação do
Espírito Santo. O Espírito transmite a misericórdia, o perdão e a aceitação de
Deus, e dá aos cristãos o desejo e a capacidade de fazer a vontade de Deus (Jo
3.16; 1Co 15.10; Fp 2.13; 1Tm 1.15,16). Todo o processo e progresso da vida
cristã, do princípio ao fim, dependem dessa graça”. (Bíblia de Estudo
Pentecostal para Jovens. Rio de Janeiro: CPAD, 2023, p.1527).
II. A GRAÇA DE DEUS E AS OBRAS
1. A graça de Deus: o favor imerecido. A graça é amplamente compreendida como o favor
imerecido de Deus, um favor concedido sem que o ser humano tenha feito algo
para merecê-lo. O termo hebraico para “graça” é chen, que transmite a ideia de “favor”
ou “benevolência”, especialmente um favor gratuito e imerecido (Gn 6.8). No
Antigo Testamento, chen muitas vezes denota a ação de Deus em favor de seu
povo, mesmo quando não a merecem (como em Gênesis 6.8, quando Noé encontra
“graça” diante do Senhor). No Novo Testamento, o termo grego para “graça” é
charis, que é usado de forma semelhante, mas com uma ênfase mais profunda na
salvação que vem de Deus. Charis não apenas reflete um favor ou benefício, mas
está ligada ao presente divino de salvação e perdão, e à capacitação que Deus
concede para viver conforme sua vontade (como vemos em Ef 2.8,9). A graça de
Deus, portanto, é uma ação de seu amor e misericórdia para com os pecadores,
oferecendo a salvação não com base em méritos humanos, mas como um dom
gratuito, disponível a todos os que creem.
👉
A Bíblia apresenta a graça não como uma ideia abstrata, mas como
uma ação concreta de Deus que invade a história humana quando não havia
qualquer mérito a ser apresentado. Desde o início das Escrituras, a graça se
revela como iniciativa divina. Em Gênesis 6.8, lemos que Noé “achou graça aos
olhos do Senhor” (NVI). O termo hebraico ḥēn comunica a ideia de favor livre,
concedido por decisão soberana daquele que o oferece. Não se trata de
recompensa por desempenho moral, mas de benevolência que nasce no coração de
Deus. Esse detalhe é fundamental para os jovens compreenderem que a relação com
Deus não começa com esforço humano, mas com a misericórdia que nos alcança
primeiro. No Antigo Testamento, ḥēn frequentemente aparece em contextos de
fragilidade e dependência. O favorecido reconhece que nada possui em si mesmo
que o torne digno. Assim, a graça revela tanto o amor de Deus quanto a real
condição do ser humano. Mesmo Noé, descrito como justo, não é apresentado como
alguém que comprou o favor divino, mas como alguém que foi alcançado por ele.
Esse padrão impede uma leitura moralista da fé e prepara o caminho para a
revelação plena da graça no Novo Testamento. A graça não ignora o pecado, mas
age apesar dele, apontando para um Deus que salva porque ama. No Novo
Testamento, o termo grego cháris aprofunda esse entendimento. Mais do que
favor, cháris envolve dom, dádiva e ação eficaz de Deus na vida do ser humano.
Em Efésios 2.8–9, Paulo afirma que a salvação é pela graça, mediante a fé, e
deixa claro que essa obra não procede do homem. Aqui, a graça não apenas
perdoa, mas inaugura uma nova realidade espiritual. Conforme destacam os
comentaristas pentecostais, cháris inclui tanto o ato salvífico quanto a
capacitação concedida pelo Espírito para viver de modo coerente com essa nova
vida. A graça salva e, ao mesmo tempo, sustenta o salvo em sua caminhada.
Essa
compreensão preserva um equilíbrio essencial da teologia pentecostal clássica.
A graça é oferecida de forma real e suficiente a todos, possibilitando a
resposta humana da fé, sem anular a responsabilidade pessoal. Como afirmam
autores como Stanley Horton e Gordon Fee, a fé não é uma obra meritória, mas a
resposta obediente à iniciativa graciosa de Deus. Assim, a salvação continua
sendo dom gratuito, mas jamais impessoal ou automática. Deus age primeiro, mas
chama o ser humano a responder com arrependimento, fé e submissão à sua
vontade. Entender a graça como favor imerecido transforma profundamente a vida
cristã prática. Se fomos alcançados sem mérito, não há espaço para orgulho
espiritual nem para comparação religiosa. Ao mesmo tempo, essa graça nos chama
a viver de forma coerente com aquilo que recebemos. Ela nos ensina a depender
de Deus diariamente, a rejeitar uma fé baseada apenas em esforço próprio e a
caminhar em humildade e gratidão. A verdadeira pergunta pastoral que emerge
desse ensino é simples e profunda. Temos vivido como quem realmente compreendeu
que tudo o que somos e temos em Cristo procede, do começo ao fim, da
maravilhosa graça de Deus?
1. BERKOF, Louis. Teologia Sistemática. São Paulo: Cultura
Cristã, 2012.
2. HORTON, Stanley M. Teologia Sistemática Pentecostal. Rio de
Janeiro: CPAD, 2016.
3. ARRINGTON, French L. Comentário Bíblico Pentecostal do Novo Testamento.
Rio de Janeiro: CPAD, 2017.
4. KEENER, Craig S. Comentário Histórico-Cultural do Novo
Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2017.
5. FEE, Gordon D. Paulo, o Espírito e o Povo de Deus. São Paulo:
Vida Nova, 2014.
6. LONGMAN III, Tremper (Ed.). Dicionário Bíblico Baker. Rio de
Janeiro: CPAD, 2023.
7. BÍBLIA DE ESTUDO PENTECOSTAL. Edição Global. Rio de Janeiro:
CPAD, 2022.
2. Obras: o reflexo da Graça em nossas vidas. No contexto bíblico, as obras não se
referem a ações que garantem a salvação, mas são expressões externas do
comportamento de uma vida transformada pela graça de Deus. O termo hebraico
para “obras” é ma’aseh, que pode ser traduzido como “ação” ou “feito”, e é
frequentemente associado à prática da lei, como nas obras exigidas pela Lei de
Moisés. No Novo Testamento, o termo grego mais comum para “obras” é ergon, que
denota qualquer tipo de ação ou trabalho (Ef 2.9). No entanto, é importante
distinguir entre as “obras da lei” e as “obras da graça”. As “obras da lei” são
aquelas ações que os judeus realizavam para tentar cumprir a Lei de Moisés,
buscando justificar-se diante de Deus por meio de seus próprios esforços, algo
que, como Paulo explica em Efésios 2.8,9, não pode resultar em salvação, pois
esta é alcançada unicamente pela graça de Deus. Por outro lado, as “obras da
graça” são aquelas que surgem como fruto da salvação que já recebemos por meio
da graça. Essas obras são as evidências da transformação que a graça de Deus
opera em nossas vidas. Como cristãos, devemos viver de maneira que nossas ações
reflitam a mudança interna causada por essa graça. As boas obras não nos
salvam, mas são a resposta a essa salvação.
👉
Quando a Bíblia fala sobre obras, ela não está tratando de um
caminho alternativo para a salvação, mas do resultado visível de uma obra
invisível que Deus já realizou no coração. Esse ponto é decisivo para uma fé
saudável. Muitos jovens conhecem bem Efésios 2.8–9, mas nem sempre percebem que
Paulo não está rejeitando as obras em si, e sim uma confiança equivocada nelas.
A graça não elimina a prática cristã. Ela redefine sua origem, seu propósito e
seu valor diante de Deus.
No
Antigo Testamento, o termo hebraico ma‘ăśeh comunica a ideia de ações
concretas, aquilo que alguém faz de forma observável. Muitas vezes, essas obras
aparecem ligadas à obediência à Lei de Moisés. O problema nunca foi a Lei em
si, mas a tentativa humana de transformá-la em instrumento de autojustificação.
Os profetas já denunciavam esse erro quando o povo mantinha práticas religiosas
externas, mas sem um coração transformado. Isso revela que obras sem graça
geram religiosidade, não comunhão com Deus.
No
Novo Testamento, Paulo utiliza o termo grego érgon, que significa trabalho,
ação ou realização. Em Efésios 2.9, ele afirma que a salvação não vem de érga,
para que ninguém se glorie. Aqui, o apóstolo confronta diretamente a lógica do
mérito. As chamadas “obras da lei” representam esforços humanos realizados com
a intenção de conquistar aceitação diante de Deus. Como destacam os comentários
pentecostais e históricos, esse tipo de obra alimenta o orgulho espiritual e
esvazia a centralidade da cruz. A salvação, portanto, não é o prêmio de um bom
desempenho religioso, mas o dom gracioso concedido por Deus àqueles que
respondem em fé.
Entretanto,
Paulo não encerra seu argumento no versículo 9. Em Efésios 2.10, ele apresenta
o outro lado da verdade. Fomos criados em Cristo Jesus para boas obras, as
quais Deus preparou de antemão. Aqui surge o equilíbrio bíblico. As obras não
são a raiz da salvação, mas seu fruto inevitável. As chamadas “obras da graça”
nascem de uma vida regenerada pelo Espírito. Elas não buscam justificar o
cristão diante de Deus, mas manifestar, no cotidiano, a nova criação que ele já
se tornou em Cristo. Como ensinam autores como Stanley Horton e Gordon Fee, o
Espírito Santo não apenas salva, mas capacita o crente a viver de forma
coerente com essa nova identidade. Se não somos salvos pelas obras, também não
fomos salvos para a passividade espiritual. A graça que perdoa é a mesma que transforma,
educa e envia. Cada escolha diária, cada atitude, cada serviço no Reino se
torna uma resposta consciente ao que Deus já fez. O jovem cristão precisa se
perguntar não apenas se crê corretamente, mas se sua vida reflete essa fé.
Nossas obras não compram a salvação, mas revelam quem realmente foi alcançado
por ela. A graça que nos salvou continua nos moldando, até que Cristo seja
plenamente visto em nós.
1. BERKOF, Louis. Teologia Sistemática. São Paulo: Cultura
Cristã, 2012.
2. HORTON, Stanley M. Teologia Sistemática Pentecostal. Rio de
Janeiro: CPAD, 2016.
3. ARRINGTON, French L. Comentário Bíblico Pentecostal do Novo
Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2017.
4. KEENER, Craig S. Comentário Histórico-Cultural do Novo
Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2017.
5. FEE, Gordon D. Paulo, o Espírito e o Povo de Deus. São Paulo:
Vida Nova, 2014.
6. CHAMPLIN, R. N. Comentário Bíblico do Novo Testamento. São
Paulo: Hagnos, 2013.
7. LONGMAN III, Tremper (Ed.). Dicionário Bíblico Baker. Rio de
Janeiro: CPAD, 2023.
8. BÍBLIA DE ESTUDO PENTECOSTAL. Edição Global. Rio de Janeiro:
CPAD, 2022.
3. A salvação pela graça e a necessidade das boas obras. A salvação pela graça não significa
que as boas obras se tornem irrelevantes. Pelo contrário, Efésios 2.10 nos
ensina que somos feitura de Deus, “criados em Cristo Jesus para boas obras”.
Por isso, é importante destacar que o ensino da graça não enfraquece a prática
das boas obras. Pelo contrário, a graça é o que nos capacita a realizar essas
obras de forma verdadeira e eficaz. O apóstolo Tiago, em sua Carta, nos lembra
de que “a fé sem obras é morta” (Tg 2.26). Ele não está contradizendo Paulo,
mas complementando-o, enfatizando que a fé verdadeira se manifesta em ações
concretas. Em outras palavras, as obras não nos salvam, mas a salvação que
recebemos pela graça nos leva a viver de maneira transformada, cumprindo o
propósito de Deus para nossas vidas. Assim, a graça de Deus nos chama não
apenas para crer em Cristo, mas também para viver de forma prática, obedecendo
aos seus mandamentos e servindo aos outros. As boas obras não são um fardo
imposto pela Lei, mas o fruto espontâneo de uma vida redimida, capacitada pela
graça para fazer o bem.
👉
A graça de Deus jamais conduz à passividade espiritual. Quando
Paulo afirma que somos “feitura de Deus, criados em Cristo Jesus para boas
obras” (Ef 2.10, NVI), ele revela que a salvação tem direção, propósito e
fruto. A palavra grega poiēma traduzida por “feitura” comunica a ideia de
obra-prima, algo cuidadosamente produzido pelas mãos do Criador. Não fomos
apenas perdoados. Fomos refeitos em Cristo. A graça que nos alcança não nos
deixa como éramos, mas inaugura uma nova existência orientada para a vontade de
Deus. Esse ensino desmonta dois extremos perigosos. De um lado, o legalismo,
que transforma as boas obras em meio de salvação. De outro, o antinomismo, que
trata a graça como licença para uma fé sem compromisso. Paulo não enfraquece a
ética cristã ao exaltar a graça. Pelo contrário, ele a fortalece. As boas obras
não são descartadas, mas recolocadas em seu devido lugar. Elas não produzem
salvação, mas fluem dela. Como destaca Stanley Horton, a graça salvadora também
é graça capacitadora, pois o Espírito Santo opera no crente tanto o querer
quanto o realizar conforme o propósito divino.
É
nesse ponto que a carta de Tiago precisa ser lida com atenção e maturidade
espiritual. Quando ele afirma que “a fé sem obras é morta” (Tg 2.26, NVI), não
está em conflito com Paulo, mas dialogando com outra distorção. Tiago confronta
uma fé meramente intelectual, verbal e estéril. Paulo combate a autoconfiança
religiosa baseada em méritos humanos. Ambos concordam que a fé verdadeira é
viva, dinâmica e visível. A fé que salva nunca permanece sozinha. Ela se
manifesta em obediência, amor ao próximo e compromisso prático com o Reino de
Deus. Do ponto de vista pentecostal clássico, essa vida de boas obras não é
sustentada por esforço humano isolado, mas pela ação contínua do Espírito
Santo. Gordon Fee e Frank Macchia lembram que o Espírito não apenas introduz o
crente na nova vida, mas o capacita a vivê-la de modo coerente. As boas obras,
portanto, não são um fardo imposto pela Lei, mas o resultado natural de uma
vida governada pelo Espírito. Onde há graça operante, há transformação visível.
Onde o Espírito habita, há fruto que glorifica a Deus. Crer em Cristo implica
viver em Cristo. A graça nos chama não apenas à confissão correta, mas a uma
prática coerente. Cada atitude, cada escolha e cada serviço se tornam respostas
conscientes ao que Deus já fez em nós. As boas obras não são moeda de troca com
Deus, mas testemunho vivo de que fomos alcançados por sua graça. Uma fé que não
transforma o modo de viver precisa ser examinada. Afinal, fomos salvos pela
graça, mas salvos para viver de forma que Deus seja visto em nós.
1. BERKOF, Louis. Teologia Sistemática. São Paulo: Cultura
Cristã, 2012.
2. HORTON, Stanley M. Teologia Sistemática Pentecostal. Rio de
Janeiro: CPAD, 2016.
3. ARRINGTON, French L. Comentário Bíblico Pentecostal do Novo
Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2017.
4. FEE, Gordon D. Paulo, o Espírito e o Povo de Deus. São Paulo:
Vida Nova, 2014.
5. MACCHIA, Frank D. Batizados no Espírito. São Paulo: Reflexão,
2019.
6. CHAMPLIN, R. N. Comentário Bíblico do Novo Testamento. São
Paulo: Hagnos, 2013.
7. LONGMAN III, Tremper (Ed.). Dicionário Bíblico Baker. Rio de
Janeiro: CPAD, 2023.
8. BÍBLIA DE ESTUDO PENTECOSTAL. Edição Global. Rio de Janeiro:
CPAD, 2022.
III. AS IMPLICAÇÕES DA GRAÇA NA VIDA CRISTÃ
1. Graça para amar. A graça de Deus nos ensina a amar, não apenas aqueles que nos amam, mas
também nossos inimigos. A verdadeira graça gera um amor incondicional,
refletido em 1 João 4.19, onde aprendemos que “amamos porque ele nos amou
primeiro”. A graça de Deus em nossas vidas nos capacita a amar como Cristo nos
amou. Nesse sentido, essa graça que recebemos deve transbordar em nosso
comportamento, levando-nos a um amor genuíno pelos outros. Como a graça de Deus
tem moldado nossa capacidade de amar, mesmo diante de desafios? Somos chamados
a amar com a mesma graça com que fomos amados.
👉
A graça de Deus não atua apenas no momento da conversão. Ela
continua educando o coração do cristão e redefinindo sua maneira de se
relacionar com as pessoas. Quando João afirma que “amamos porque ele nos amou
primeiro” (1Jo 4.19, NVI), ele estabelece a origem do amor cristão. O amor não
nasce do esforço humano nem da afinidade natural, mas da iniciativa graciosa de
Deus. Antes de qualquer resposta nossa, houve um movimento divino em nossa
direção. A graça precede o amor humano e o torna possível.
No
Novo Testamento, o amor que flui da graça é descrito pelo termo grego agápē, um
amor que não depende de merecimento, reciprocidade ou conveniência. Esse amor
não é apenas sentimento, mas decisão orientada pela vontade de Deus. Ele se
distingue do amor meramente emocional porque reflete o caráter do próprio Deus.
Como destacam os comentários pentecostais, o agápē não surge espontaneamente da
natureza humana caída, mas é fruto da obra do Espírito Santo no interior do
crente. Amar dessa forma é sinal de que a graça está operando profundamente na
vida cristã.
Esse
ensino confronta diretamente nossa tendência natural de amar seletivamente. A
graça nos chama a ir além do amor que responde ao afeto recebido. Jesus já
havia ensinado que amar apenas quem nos ama não revela nada extraordinário. A
graça, porém, nos conduz a um amor que alcança inclusive aqueles que nos ferem.
Não se trata de ignorar a dor ou justificar o mal, mas de permitir que a graça
transforme nossas reações. Stanley Horton observa que esse tipo de amor não
anula a justiça, mas impede que o coração seja dominado pela amargura. Amar
pela graça significa permitir que Deus trate nossas feridas mais profundas.
Muitos jovens carregam histórias marcadas por rejeição, traição e frustração. A
graça não apenas nos ordena a amar, mas nos cura para que possamos amar. À
medida que compreendemos o quanto fomos alcançados quando não merecíamos, somos
libertos da lógica da vingança e do fechamento emocional. A experiência da
graça gera empatia, misericórdia e disposição para o perdão. Viver esse amor é
um chamado diário. Não é algo automático nem fácil. É fruto de uma vida rendida
à ação contínua do Espírito Santo. A graça que nos salvou é a mesma que nos
capacita a amar como Cristo amou. Por isso, a pergunta pastoral permanece viva
e necessária. De que maneira a graça de Deus tem moldado nossas atitudes,
palavras e reações? Amar com a graça com que fomos amados é uma das evidências
mais claras de que o Evangelho está, de fato, transformando nossa vida.
1. BERKOF, Louis. Teologia Sistemática. São Paulo: Cultura
Cristã, 2012.
2. HORTON, Stanley M. Teologia Sistemática Pentecostal. Rio de
Janeiro: CPAD, 2016.
3. ARRINGTON, French L. Comentário Bíblico Pentecostal do Novo
Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2017.
4. KEENER, Craig S. Comentário Histórico-Cultural do Novo
Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2017.
5. FEE, Gordon D. Paulo, o Espírito e o Povo de Deus. São Paulo:
Vida Nova, 2014.
6. LONGMAN III, Tremper (Ed.). Dicionário Bíblico Baker. Rio de
Janeiro: CPAD, 2023.
7. BÍBLIA DE ESTUDO PENTECOSTAL. Edição Global. Rio de Janeiro:
CPAD, 2022.
2. Graça para perdoar. Em Efésios 4.32, somos instruídos da seguinte maneira: “sede uns para
com os outros benignos, misericordiosos, perdoando-vos uns aos outros, como
também Deus vos perdoou em Cristo”. A graça nos capacita a nos tornarmos
bondosos, no lugar de malignos; a ter compaixão pelos que vivem no engano e,
por isso, perdoar, assim como fomos perdoados (Cl 3.13,14). O perdão é uma
resposta direta à graça recebida, pois, sem a graça de Deus, não seríamos
capazes de perdoar de fato. Contudo, sabemos que perdoar não é fácil, mas a
graça de Deus nos dá forças para libertar o outro e a nós mesmos da escravidão
do ressentimento. Essa graça nos ensina a perdoar, não por mérito do ofensor,
mas por causa do perdão que recebemos em Cristo.
👉
Perdoar é uma das evidências mais profundas de que a graça de
Deus realmente nos alcançou. Em Efésios 4.32, Paulo não apresenta o perdão como
um ideal distante, mas como uma consequência lógica da nova vida em Cristo:
“Sejam bondosos e compassivos uns para com os outros, perdoando-se mutuamente,
assim como Deus os perdoou em Cristo” (NVI). O verbo grego usado para “perdoar”
é charízomai, da mesma raiz de cháris (graça). Isso revela algo essencial. O
perdão cristão não nasce da força emocional, nem da justiça humana, mas da
graça que foi concedida gratuitamente. Perdoar, biblicamente, é estender ao
outro aquilo que recebemos de Deus sem merecer. Paulo escreve essas palavras a
uma igreja formada por pessoas feridas por conflitos reais. O contexto de
Efésios 4 mostra tensões comunitárias, palavras duras e atitudes que
entristeciam o Espírito Santo. Nesse cenário, o apóstolo não manda apenas
conter a ira, mas substituí-la por benignidade e compaixão. Os termos gregos
chrēstós (bondoso) e eusplágchnos (compassivo) indicam uma mudança interior
profunda, que atinge as disposições do coração. Como observam Arrington e
Horton, essa transformação não é fruto de autocontrole moral, mas da obra
contínua do Espírito Santo no crente, aplicando a graça salvadora à vida
prática. O paralelo com Colossenses 3.13-14 reforça essa verdade. Paulo afirma
que devemos suportar uns aos outros e perdoar “assim como o Senhor lhes
perdoou”. Aqui, o padrão do perdão não é o arrependimento perfeito do ofensor,
mas a ação graciosa de Cristo. O perdão cristão não nega a gravidade do pecado,
mas reconhece que a cruz foi mais poderosa que a ofensa. Champlin destaca que o
perdão bíblico não é esquecimento forçado, mas libertação consciente da dívida
moral, entregando o juízo final a Deus. Isso preserva o coração do crente da
corrosão espiritual causada pelo ressentimento.
Do
ponto de vista pastoral, é fundamental compreender que a graça não minimiza a
dor, mas oferece um caminho de cura. Muitos jovens convivem com mágoas
profundas, traições familiares e feridas emocionais antigas. A graça não exige
que a dor desapareça instantaneamente, mas concede forças para não permitir que
ela governe a vida. Frank Macchia observa que o perdão é um ato espiritual que
rompe cadeias invisíveis. Quem se recusa a perdoar permanece preso ao passado.
Quem perdoa pela graça experimenta liberdade interior, ainda que o
relacionamento precise ser restaurado com sabedoria e limites. Perdoar,
portanto, é um ato de fé e obediência. Não se trata de mérito do ofensor, mas
de fidelidade ao Evangelho. A graça que nos alcançou quando estávamos mortos em
nossos pecados continua operando, ensinando-nos a viver como filhos da luz.
Cada ato de perdão testemunha que a cruz não é apenas uma doutrina que
confessamos, mas uma realidade que molda nossas relações. A pergunta que
permanece diante de nós é inevitável e pastoral: temos permitido que a graça de
Deus governe nossas reações, ou ainda estamos tentando resolver feridas
espirituais com forças que a graça já veio substituir?
ARRINGTON, French L. Comentário Bíblico Pentecostal do Novo
Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2017.
BERKOF, Louis. Teologia Sistemática. São Paulo: Cultura Cristã,
2012.
HORTON, Stanley M. Teologia Sistemática Pentecostal. Rio de
Janeiro: CPAD, 2016.
KEENER, Craig S. Comentário Histórico-Cultural do Novo
Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2017.
MACCHIA, Frank D. Batizados no Espírito: Uma Teologia Global
Pentecostal. São Paulo: Vida Nova, 2014.
CHAMPLIN, R. N. O Novo Testamento Interpretado Versículo por
Versículo. São Paulo: Hagnos, 2013.
BÍBLIA DE ESTUDO PENTECOSTAL. Edição Global. Rio de Janeiro:
CPAD, 2022.
BÍBLIA DE ESTUDO PLENITUDE. Barueri: Sociedade Bíblica do
Brasil, 2019.
3. Graça para servir. A graça de Deus também nos capacita a servir aos outros. Em Tito
2.11,12, o apóstolo nos mostra que essa graça nos educa para renunciar “à
impiedade e às concupiscências mundanas” para que “vivamos neste presente
século sóbria, justa e piamente”. Dessa forma, a graça de Deus nos faz enxergar
o serviço ao próximo não como uma obrigação, mas como uma expressão de gratidão
e amor. Então, servir aos outros é uma maneira de refletir a graça divina no
mundo. Como podemos, em nossa vida diária, ser instrumentos de serviço e bênção
para os outros, demonstrando a graça que recebemos? O cristão deve ser, assim
como Cristo, um servo, e sua graça é demonstrada no serviço aos outros (Jo
13.1-15).
👉
A graça de Deus não apenas nos alcança para salvar, ela nos
forma para servir. Em Tito 2.11-12, Paulo afirma que “a graça de Deus se
manifestou trazendo salvação a todos” e, em seguida, declara que essa mesma
graça “nos ensina” a viver de modo diferente neste mundo (NVI). O verbo grego
paideúō usado para “ensinar” carrega a ideia de educar, disciplinar e formar o
caráter. A graça não é permissiva nem passiva. Ela é pedagógica. Ela nos treina
para uma nova forma de vida, orientada não pelo ego, mas pelo propósito de
Deus.
Esse
ensino gracioso tem um alvo claro. Renunciar à impiedade e às paixões mundanas
e aprender a viver de maneira sóbria, justa e piedosa no tempo presente. Aqui,
Paulo conecta graça e ética cristã de modo inseparável. A sobriedade aponta
para domínio próprio. A justiça para relacionamentos corretos com o próximo. A
piedade para uma vida orientada para Deus. Como observa Stanley Horton, a graça
não apenas nos liberta da culpa do pecado, mas também do poder do pecado,
capacitando o crente a viver de modo coerente com sua nova identidade em
Cristo. Servir nasce dessa transformação interior, não de imposições externas.
Nesse
sentido, o serviço cristão não é um fardo religioso, mas uma resposta de
gratidão. A graça muda a motivação do coração. Não servimos para sermos aceitos
por Deus, servimos porque já fomos aceitos por Ele. Essa compreensão protege o
cristão tanto do legalismo quanto da passividade espiritual. Berkof destaca que
a verdadeira graça sempre gera frutos visíveis na vida prática. Onde a graça
opera, o ego perde o centro e o amor ao próximo passa a orientar as ações.
Servir, então, torna-se uma expressão concreta da fé viva.
O
próprio Cristo é o modelo supremo desse serviço gracioso. Em João 13.1-15,
Jesus lava os pés dos discípulos, assumindo a posição do servo mais humilde da
casa. Ele não apenas realiza o gesto, mas o interpreta. “Eu lhes dei o exemplo”
(NVI). O serviço cristão nasce da cruz e se expressa na humildade. Como observa
Craig Keener, esse ato subverte as hierarquias humanas e redefine grandeza à
luz do Reino. No Espírito, o crente é capacitado a servir não para ser visto,
mas para refletir o caráter de Cristo no cotidiano. De que forma a graça tem
moldado nossa maneira de servir? Em casa, na igreja, na sociedade. A graça que
nos educa também nos envia. Ela nos chama a enxergar pessoas, necessidades e
oportunidades com os olhos de Cristo. Servir é tornar visível, no mundo
concreto, a graça invisível que nos transformou. Quando o cristão serve com
humildade, amor e fidelidade, o Evangelho deixa de ser apenas anunciado e passa
a ser vivido.
BERKOF, Louis. Teologia Sistemática. São Paulo: Cultura Cristã,
2012.
HORTON, Stanley M. Teologia Sistemática Pentecostal. Rio de
Janeiro: CPAD, 2016.
ARRINGTON, French L. Comentário Bíblico Pentecostal do Novo
Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2017.
KEENER, Craig S. Comentário Histórico-Cultural do Novo
Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2017.
CHAMPLIN, R. N. O Novo Testamento Interpretado Versículo por
Versículo. São Paulo: Hagnos, 2013.
BÍBLIA DE ESTUDO PENTECOSTAL. Edição Global. Rio de Janeiro:
CPAD, 2022.
BÍBLIA DE ESTUDO PLENITUDE. Barueri: Sociedade Bíblica do
Brasil, 2019.
SUBSÍDIO II
Professor(a), no decorrer deste
tópico procure enfatizar que uma das implicações da graça na vida cristã é a
graça para amar. “Amar o próximo não era um novo mandamento (ver Lv 19.18), mas
amar os semelhantes, assim como Cristo os amou, era um mandamento revolucionário.
Agora devemos amar aos outros baseando-nos no amor sacrificial de Jesus por
nós. Tal amor não apenas levará os incrédulos a Cristo; também manterá os
cristãos fortes e unidos em um mundo que é hostil a Deus. Jesus foi um exemplo
vivo do amor de Deus, e nós devemos ser exemplos vivos do amor de Jesus!”
(Adaptado de Bíblia de Estudo Aplicação Pessoal. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.
p.1447).
CONCLUSÃO
A compreensão da graça de Deus não
deve ser limitada a um evento isolado no passado, mas deve ser vivida e
aplicada no cotidiano do cristão. A graça transforma nossa maneira de viver, de
nos relacionarmos com Deus e com os outros. Ela nos capacita a perdoar, a amar
e a servir, não por méritos próprios, mas como uma resposta ao imenso favor que
recebemos de Deus. Portanto, a salvação pela graça é um chamado para uma vida
nova, que reflete a misericórdia divina em todas as nossas ações.
👉
Compreender a graça de Deus é muito mais do que recordar um
momento inicial da fé cristã. A graça não pertence apenas ao passado da
conversão, mas acompanha, sustenta e molda toda a caminhada do discípulo de
Cristo. Em Efésios 2, aprendemos que a mesma graça que nos tirou da morte
espiritual continua operando em nós para formar um novo modo de viver. Ela
redefine nossa relação com Deus, não mais baseada no medo ou na tentativa de
merecimento, mas na confiança filial. Ao mesmo tempo, transforma nossa relação
com o próximo, pois quem foi alcançado pela graça passa a enxergar as pessoas
não a partir do julgamento, mas da misericórdia. Essa graça recebida não nos
conduz à passividade espiritual, mas a uma vida intencionalmente transformada.
Somos chamados a amar porque fomos amados, a perdoar porque fomos perdoados e a
servir porque Cristo nos serviu primeiro. A fé que nasce da graça se expressa
em atitudes concretas, visíveis e coerentes com o Evangelho. Não se trata de
obras para conquistar a salvação, mas de uma nova vida que inevitavelmente
produz frutos. A graça, portanto, não anula a responsabilidade cristã, antes a
fundamenta e a orienta. Assim, a salvação pela graça revela-se como um chamado
contínuo à novidade de vida. Ela nos convida a refletir o caráter de Deus em
cada escolha, palavra e atitude. Viver pela graça é permitir que a misericórdia
divina se torne visível no cotidiano, tornando o cristão um sinal vivo do Reino
de Deus neste mundo. Onde a graça governa o coração, a vida passa a anunciar o
Evangelho antes mesmo das palavras. Com base nesta lição, poedemos extrair três
preciosas aplicações práticas para a vida do aluno:
1.
Examinar diariamente se suas atitudes refletem a graça recebida, especialmente
na forma como trata pessoas difíceis, lembrando que Deus o tratou com
misericórdia quando ainda era pecador.
2.
Praticar o perdão de maneira consciente e espiritual, não como sentimento
momentâneo, mas como decisão baseada na obra de Cristo, permitindo que a graça
liberte o coração do ressentimento.
3.
Encarar o serviço cristão como expressão natural da fé, colocando dons, tempo e
disposição a serviço de Deus e do próximo, não por obrigação, mas por gratidão
à graça que transforma.
HORA DA REVISÃO
1. Como é caracterizada a vida sem Cristo?
A vida sem Cristo é caracterizada por
uma separação de Deus, sujeita à ira divina.
2. Qual é a única razão pela qual passamos da morte para a vida?
A graça de Deus é a única razão pela
qual passamos da morte para a vida.
3. O que são as obras da Lei?
As ‘obras da lei’ são aquelas ações
que os judeus realizavam para tentar cumprir a Lei de Moisés, buscando
justificar-se diante de Deus por meio de seus próprios esforços.
4. O que são as obras da Graça?
As “obras da graça” são aquelas que
surgem como fruto da salvação que já recebemos por meio da graça. Essas obras
são as evidências da transformação que a graça de Deus opera em nossas vidas.
5. Em relação ao amor, o que a Graça de Deus nos ensina?
A graça de Deus nos ensina a amar,
não apenas aqueles que nos amam, mas também nossos inimigos.