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15 de novembro de 2021

A D U L T O S - LIÇÃO 8: PAULO, O DISCIPULADOR DE VIDAS

 

 

 

TEXTO AUREO

E, Paulo tendo escolhido a Silas, partiu, encomendado pelos irmãos à graça de Deus. E passou pela Síria e Cilicia, confirmando as igrejas.” (At 15.40-41)   

 

VERDADE PRATICA

O discipulado cristão forma discípulos de Cristo para que o imitem de forma que Deus seja glorificado na sociedade. 

 

LEITURA BÍBLICA EM CLASSE

Atos 2.42-47; 20.1-4

 

INTRODUÇÃO

Nesta lição, veremos os aspectos gerais do discipulado, com destaque para o papel de Paulo no processo do discipulado nas igrejas que plantou. Perceberemos que esse foi o meio pelo qual nosso Senhor nos concedeu para que os recém-nascidos na fé fossem formados segundo o caráter de Cristo.

 

Comentário

 - É palpável o quanto o cristianismo, o cristianismo evangélico mesmo, produz tão pouco impacto na sociedade contemporânea. A rasura doutrinária e espiritual das pessoas (para não mencionarmos as heresias e os desvios teológicos), os escândalos de todos os tipos e a atuação quase nula dos cristãos (individualmente como sal da terra e luz do mundo) para o bem comum na sociedade é de deixar angustiados os crentes mais dedicados. Quem conhece o Novo Testamento com maiores detalhes e já leu algo da história da igreja e do impacto dela em seus melhores momentos no mundo certamente que se sente exilado da igreja nesta época, sente-se como um peixe fora d’água, chega a sentir nostalgia – melancolia de tanta saudade da verdadeira igreja e dos crentes de verdade. A razão para tanto, da perspectiva humana, não é outra senão que se perdeu a noção do significado de se ser discípulo de Jesus Cristo – e, portanto, não se vive ou se pratica o discipulado nos moldes neotestamentários. Veja, não é que não se fala a respeito de “discípulo” ou de “discipulado” ou sobre “discipular” nas igrejas, mas que esses termos perderam por completo os conteúdos de seu significado na prática. Sem discípulos de Cristo e sem discipulado cristão, igrejas inteiras, quando não se desmantelam, perdem totalmente o poder de impactar e de transformar para a glória de Deus – deixam de ser sal da terra e luz do mundo. Richard J. Foster, no clássico cristão que escreveu – Celebração da Disciplina – fez um apontamento que é cirúrgico: Onde estão hoje as pessoas que responderão ao chamado de Cristo? Tornamo-nos tão acostumados à “graça barata” que instintivamente nos esquivamos dos apelos mais exigentes à obediência? “Graça barata é graça sem discipulado, graça sem a cruz.” Sem discipulado nós caímos na graça barata. Mas quem é o discípulo, o que é o discipulado, como discipular? Mark Dever – em Discipulado: como ajudar pessoas a seguir Jesus – definiu do seguinte modo o significado de discipular e de discipulado, e colocou na perspectiva neotestamentária o significado de discípulo na vida cristã: Essa é a definição de discipular neste livro: ajudar outras pessoas a seguir Jesus. Podemos vê-la no subtítulo. Outra definição possível seria: discipular é exercer uma boa influência espiritual sobre alguém, de modo deliberado, de forma que essa pessoa se torne mais parecida com Cristo. Discipulado é o termo que uso para designar o ato de seguirmos a Cristo. Discipular faz parte disso e significa ajudar alguém mais a seguir Jesus. A vida cristã é uma vida discipulada e uma vida que discipula. Sim, o cristianismo envolve escolher a via menos percorrida e ouvir um tambor diferente. Vivido assim dessa maneira, nosso cristianismo faria toda a diferença. Procura-se discípulos, portanto: gente que segue Jesus e ajuda outras pessoas a fazer o mesmo, gente discipulada e que discipula para que todos nos tornemos parecidos com Cristo.

Aproveitemos esta lição para refletirmos no verdadeiro sentido do tema proposto! Uma excelente aula a todos!

 

 

I – PAULO E O DISCIPULADO BÍBLICO

 

   1.  O discipulado bíblico. O princípio do discipulado na Igreja Primitiva baseava-se na ordem da Grande Comissão que Jesus deu aos discípulos por ocasião de seu aparecimento e despedida (Mt 28.19,20). Após o Pentecostes, quando a Igreja nasceu historicamente, o cuidado com os recém-nascidos na fé precisava ser bem estruturado. Em Atos 2.42-47, vemos claramente que as Escrituras (doutrina), a oração, a prática da comunhão e do serviço faziam parte do programa de discipulado da Igreja. Assim, o Paulo onde fazia discípulos, não somente convencia-os a respeito de Cristo, mas mostrava-lhes como imitá-lo (At 17.1-9; 1 Ts 1.2-10).   

 

Comentário

- A Grande Comissão é a ordem que Jesus deu para ir e fazer discípulos em todo o mundo. Jesus deu essa ordem aos apóstolos quando ressuscitou. A Grande Comissão é uma ordem para todos os crentes. A passagem conhecida como a “Grande Comissão” é Mateus 28:18-20. Depois que ressuscitou, Jesus apareceu aos 11 apóstolos e os enviou para pregar o evangelho ao mundo todo, fazendo mais discípulos até o fim dos tempos.

- Discipulado é aprender e ensinar a seguir e obedecer Jesus. Todo crente é chamado para ser discípulo e fazer outros discípulos. O discipulado põe a fé em ação. O discipulado é parte da missão da Igreja. Jesus formou discípulos e nos deu a todos a ordem de formar mais discípulos, pelo mundo todo (Mateus 28:19-20). Discipular é:

    Levar para Jesus,

    Ensinar a obedecer aos mandamentos de Jesus.

- A Bíblia nos lembra que os primeiros seguidores de Jesus Cristo foram chamados cristãos pela primeira vez quando as testemunhas e o testemunho da fé chegaram à cidade de Antioquia (Atos 11.25). Embora provavelmente inicialmente fosse um termo de escárnio, os seguidores de Cristo logo adotaram a designação de cristãos, porque os identificava de forma aberta e sem vergonha alguma. Mas antes que o título de cristão fosse amplamente aceito, como eram chamados os primeiros seguidores de Cristo? Eles eram simplesmente chamados de “discípulos”. Discípulo era a referência preferida para os crentes. Mas o que é um discípulo?

Em resumo, um discípulo é um estudante. Um discípulo é alguém que se disciplina nos ensinamentos e práticas de outro. A palavra discípulo, como disciplina, vem da palavra latina “discipulus”, que significa “aluno” ou “aprendiz”. Consequentemente, aprender é disciplinar-se. Por exemplo, se alguém quer avançar nas artes, nas ciências ou no atletismo, precisa disciplinar-se e aprender e seguir os princípios e fundamentos dos melhores mestres nessa área de estudo. Assim foi, e ainda é, com os discípulos de Cristo. Um discípulo segue Jesus.

Quando Jesus chamou Seus primeiros discípulos, simplesmente disse: “Siga-me” (Marcos 1.17; 2:14; João 1.43). Um discípulo é um seguidor, alguém que confia e acredita em um mestre e segue as palavras e o exemplo desse mestre. Portanto, ser um discípulo é estar em um relacionamento. É ter um relacionamento íntimo, instrutivo e imitador com o mestre. Consequentemente, ser discípulo de Jesus Cristo é ter um relacionamento com Jesus – é procurar ser como Jesus. Em outras palavras, seguimos a Cristo para ser como Cristo (1Co 11.1) porque, como seus discípulos, pertencemos a Cristo. O discípulo de Jesus tem certas características que são proporcionais ao relacionamento com Jesus.

- CHAMPLIN escreve: “A palavra está relacionada a ideia de disciplina. Isso é muito instrutivo, porque acima de tudo, dos verdadeiros discípulos requer-se disciplina. Jesus não chamava homens meramente para que o seguissem. Ele exigia que eles renunciassem a tudo. Isso é assim, porque o discipulado envolve questões de vida e morte, porquanto o alvo do mesmo é a vida eterna (que vide). A própria vida cristã é uma disciplina. Quando os homens a reduzem a algo menor do que isso. O cristianismo deixa de ser a religião que foi fundada por Jesus possível a existência de uma sociedade religiosa na qual as pessoas se reúnem e desfrutam da companhia umas das outras, e até mesmo cumprem algumas boas obras, sem reterem a natureza de um verdadeiro discipulado. Suponho que muitos aspectos da maioria das denominações evangélicas refletem essa situação em nossos dias. A palavra portuguesa discípulo vem do latim discípulos, que significa «aluno», «aprendiz» A raiz verbal é discere, «ensinar». A palavra grega pondente é mathetés de onde também se deriva palavra que significa «aprender», O termo hebraico Ialmld vem de telmad, «aprender», conforme se vê em I Crônicas 25:8, ao referir-se aos alunos da escola de música do templo de Jerusalém. Natural mente, a aprendizagem necessariamente subentende a prática daquilo que alguém aprende; e é então que temos o disclpulado. De acordo com o uso posterior entre os hebreus, a palavra talmidim (discípulos) veio a ser usada para indicar aqueles que seguiam algum rabino especifico e a sua escola de pensamento. Houve também o desenvolvimento do Talmude (erudição), os escritos que serviam para aclarar e expandir as Escrituras do Antigo Testamento. Esse documento em uma certa alusão aos talmidim ou discípulos de Jesus”. (CHAMPLIN, Russell Norman, Enciclopédia de Bíblia Teologia e Filosofia. Editora Hagnos. Vol. 2. pag. 180-181).   

 

   2.   Paulo, o discipulador. O apóstolo dos gentios foi um discipulador distinto. Após a sua conversão, ele sentiu a necessidade de conhecer a Cristo mais profundamente (Gl 1.15-17). Paulo sabia do desafio ao defender o nome de Jesus diante dos judeus. Ao longo de suas cartas, vemos um compromisso profundo com a doutrina exposta e a sua aplicabilidade na vida do discípulo. Há doutrina no discipulado, mas há também prática coerente com a doutrina. Isso faz com que o discípulo cresça e chegue à maturidade. Conhecer de maneira teórica apenas, não basta. Para isso, a formação cristã deve apresentar uma integração entre doutrina e prática.   

 

Comentário

- A vida do apóstolo Paulo inspira-nos de muitas formas. Acredito que, sem menosprezarmos a qualquer outro dos apóstolos tais como Pedro ou João, vemos em Paulo a expressão quase perfeita do que seja um verdadeiro discípulo de Jesus Cristo. Eu disse "quase perfeita" porque não poderemos presumir perfeição em qualquer sentido nesta vida. Mas, como disse o próprio Paulo em Fp 3.11,12: "Para ver se de alguma maneira posso chegar à ressurreição dentre os mortos. Não que já a tenha alcançado, ou que seja perfeito; mas prossigo para alcançar aquilo para o que fui também preso por Cristo Jesus." Paulo, desde sua conversão no caminho de Damasco (At 9) continuará sendo para todos nós, o grande exemplo de dedicação, zelo e amor à causa do Evangelho de Cristo.

- O discipulado em Paulo é imitar a Cristo. Imitar a Cristo é ter a Sua mente. Ter a mente de Cristo é ser espiritual. Ser espiritual é ter mesmo sentimento que Cristo teve. O discipulado em Paulo começa e termina em Cristo.

 

O discipulado em Paulo mostra aos que querem fazer discípulos pelo menos três verdades:

1. Discipulado é imitar a Cristo.

2. Discipulado é ser imitado.

3. Discipulado é fazer discípulos, não para nós mesmos, mas para Cristo.

Discipulado é imitar a Cristo. O discipulado em Paulo é tornar-se semelhante a Cristo pelo processo de imitação. A vida de Paulo teria que ser uma boa exegese da de Cristo. As palavras de Paulo teriam que ser uma boa hermenêutica das de Jesus. Paulo imitou a Cristo porque recebeu Dele o Evangelho – Cristo morreu por nossos pecados e ressuscitou para nossa justificação, segundo as Escrituras – e o entregou em forma de ensino.

Discipulado é ser imitado. O discipulado em Paulo apresenta um convite simples para imitá-lo, gerando imitadores verdadeiros, não caricaturas de Jesus. Isso por uma razão muito simples, Paulo era discípulo de Jesus. Paulo não era um discipulador sem ser, antes, um discípulo. O caráter de Paulo foi moldado quando recebeu de Jesus a Palavra da reconciliação. Paulo era, em Cristo, original. A autoridade de Paulo para este convite não repousava em si mesmo, mas naquilo que disse: como também eu sou de Cristo.

Discipulado é fazer discípulos, não para nós mesmos, mas para Cristo. O discipulado em Paulo gera discípulos para Jesus. Paulo era de Cristo e, no processo de transmissão de vida, levava as pessoas a serem de Cristo. Paulo não fazia prosélitos, seguidores de homens. Paulo fazia discípulos, seguidores de Jesus. O discipulado em Paulo apontava para Cristo, tendo como representação a sua própria vida. A glória do discipulado em Paulo não era gerar pequenos paulos, mas pequenos cristos.

Ir por todo mundo e fazer discípulos de todas as nações com a consciência do discipulado em Paulo, resultará discipulado verdadeiro. O discípulo formado na perspectiva de Paulo guardará todas as coisas que Jesus mandou guardar. A prática do discipulado de Paulo tem como promessa a presença de Jesus no processo inteiro”. (Extraído de: http://www.apenasevangelho.com.br/2014/08/o-discipulado-em-paulo.html. Acesso em: 15 NOV 21).

- É esclarecedor o que Timothy Carriker escreve em “Missões na Bíblia” (Vida Nova): “O AGENTE MISSIONÁRIO: O MELHOR, MAS AO MESMO TEMPO, UM SERVO Nesta passagem, o agente missionário é o apóstolo Paulo (ou, em última análise, o próprio Deus — v. 15). Embora, logicamente, Paulo mesmo não diga aqui que ele representa o melhor da liderança da igreja, sabemos disso pelo testemunho de Lucas. Paulo já tivera seu ministério aprovado como um dos mestres e profetas em uma igreja local altamente comprometida com missões — a igreja de Antioquia (At 13.1-3). Que contraste com alguns missionários de menor preparo e talento que, como consequência, em quase todos os sentidos, recebem apoio inferior ao apoio dado ao pastorado! O trabalho missionário exige o melhor da liderança de nossas igrejas. Ao mesmo tempo, representando o melhor da liderança, o agente missionário entende seu papel não como superior, mas como servo. Paulo, em sua missão entre os gentios, considera-se ministro (leitourgos) ou servo (v. 16) que, à semelhança dos sacerdotes, apresenta uma oferta no altar de Deus. Neste caso, a oferta é a obediência dos gentios a Deus (v. 18). A missão de Paulo é um culto prestado ao Senhor para sua aceitação e santificação. Não há lugar, na presença do Altíssimo, para atitudes de superioridade ou domínio missionário. O melhor líder possui uma atitude de servo e entende seu serviço missionário como culto e sacrifício prestados a Deus.   O OBJETIVO MISSIONÁRIO: A OBEDIÊNCIA Paulo descreve o objetivo de seu trabalho missionário com a expressão “conduzir os gentios à obediência” (v. 18). Isto é muito mais do que uma decisão inicial de “aceitar a Cristo”. Inclui o discipulado da igreja até o ponto de obediência por fé (16.26). Alguns fazem separação entre “conversão” e “discipulado”, sendo o primeiro elemento tarefa de “missões” e o segundo, da “edificação da igreja”. Paulo não fazia tal distinção. Seu objetivo não era levar as pessoas a uma decisão inicial, mas conduzi-las à obediência. Não é este também o objetivo da grande comissão, em Mateus 28.18-20?   OS INSTRUMENTOS DO TRABALHO MISSIONÁRIO: DECLARAÇÃO E DEMONSTRAÇÃO Como Paulo realizou seu trabalho missionário? No final do v. 18, ele diz literalmente: “… por palavra e por obras”. É evidente que Paulo não estabelecia prioridade entre a proclamação do evangelho e sua demonstração por obras. As duas coisas faziam parte integral e inseparável de sua maneira de testemunhar.   O OBJETO MISSIONÁRIO: AS NAÇÕES Tanto “gentios” quanto “nações” traduzem uma única palavra grega, ethnos. A ideia de ethnos está muito mais próxima da ideia de povos ou grupos étnicos do que países. O objeto com o qual as missões lidam são as diversas etnias. Paulo teve ideia semelhante, e isto se percebe pelo fato de ele ter atuado dentro dos limites de um só governo, o Império Romano, enquanto fazia distinção entre os povos deste império”. (Timothy Carriker. Missões na Bíblia. Editora: Vida Nova. pag. 40-42).

 

 

   3.   A metodologia de Paulo para o discipulado. O primeiro passo para o discipulado de Paulo era pregar o Evangelho e, pelo poder do Espirito Santo, convencer as pessoas acerca de Cristo. Então, a partir dos primeiros convertidos, ele plantava uma igreja na Ao plantá-la, o apóstolo ficava ali o tempo suficiente para firmar os passos dos novos convertidos. Como seu ministério envolvia itinerância, ele não ficava muito tempo no mesmo lugar e, logo, deixava ou enviava alguém experimentado na fé continuidade ao discipulado dos novos para dar convertidos (At 13.1-4; 15.39,40). Em seu ministério, vemos discípulos especiais que ajudaram muito o trabalho de Paulo: Timóteo, Tito, Silas, Lídia, Áquila e Priscila e outros mais (At 15.40; 16.1). Além de fortalecer a fé dos novos convertidos, o apóstolo mantinha uma relação de comunhão e amizade com eles e seus cooperadores. Uma lição importante, aqui, é destacar que a obra do discipulado envolve pessoas que sejam crentes de verdade, idôneas, que amem o Senhor e sua Igreja, ao ponto de se doar inteiramente em favor de um novo convertido.   

 

Comentário

O que queremos dizer por “discipulado”? Em certo sentido, quase tudo o que fazemos como igreja local é sobre ser e fazer discípulos. Os cânticos cantados, as orações oradas e, certamente, os sermões pregados todos almejam nos edificar para sermos discípulos que glorifiquem a Deus.

Mas, neste folheto, temos algo mais específico em mente ao usarmos a palavra “discipulado”. Estamos pensando particularmente em relacionamentos individuais. Mais formalmente, estamos falando sobre o encorajamento intencional e o treinamento de discípulos de Jesus com base em relacionamentos deliberadamente amorosos.

Jesus nos diz para acompanharmos uns aos outros deste modo: “O meu mandamento é este: que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei” (João 15.12). Como Jesus amou os seus discípulos de maneiras que possam ser imitadas? Ele os amou intencional, propositada, humilde, alegre e normalmente. Vamos pensar nessas descrições.

Intencional: “Não fostes vós que me escolhestes a mim; pelo contrário, eu vos escolhi a vós outros […]” (João 15.16a). Jesus não simplesmente esbarrou em seus discípulos; ele tomou uma amorosa iniciativa. Ele os escolheu. O amor semelhante ao de Cristo não é passivo; ele toma iniciativa. Amar outros cristãos como Cristo nos amou significa tomar a iniciativa.

Propositado: “e vos designei para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça” (João 15.16b). O amor de Cristo por seus discípulos é propositado. Ele os chamou a darem fruto para a glória de Deus. Em outras palavras, o seu amor não é meramente sentimental, mas tem o compromisso maravilhoso de glorificar a Deus. Se havemos de amar uns aos outros como Cristo nos amou, certamente iremos compartilhar os objetivos de Jesus para conosco, isto é, o bem espiritual dos nossos amigos e a glória de Deus por meio da alegria deles no evangelho.

Humilde: Jesus diz: “Como o Pai me amou, também eu vos amei” (João 15.9) e “Já não vos chamo servos, […] mas tenho-vos chamado amigos” (João 15.15a). Jesus condescende em ser nosso amigo, muito embora esteja ele infinitamente acima e além de nós em majestade, santidade e honra. Certamente, então, nós devemos nos relacionar com toda a humildade com nossos irmãos e irmãs com quem compartilhamos a queda. Nós os tratamos como amigos a quem amamos, não como “projetos” ou “inferiores”. Nós não nos colocamos por cima, antes honramos e cuidamos.

Alegre: “Tenho-vos dito isso para que a minha alegria permaneça em vós” (João 15.11, ARC). Jesus nos ordena a amarmos uns aos outros a fim de conhecermos a sua alegria. Cuidar de outros cristãos e encorajar o seu crescimento na graça pode ser trabalho árduo. Mas é um trabalho maravilhoso e Jesus diz que é um trabalho que traz alegria!

Normal: Jesus torna esse tipo de discipulado amoroso o seu mandamento básico para todo o seu povo e, assim, algo normal para todos os cristãos. Ouça novamente: “O meu mandamento é este: que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei”. Não é surpreendente que você encontre essa conversa sobre o discipulado cristão básico ao longo da Palavra de Deus:

    “Exortai-vos mutuamente cada dia, durante o tempo que se chama Hoje, a fim de que nenhum de vós seja endurecido pelo engano do pecado” (Hebreus 3.13).

    “Amai-vos cordialmente uns aos outros com amor fraternal, preferindo-vos em honra uns aos outros” (Romanos 12.10).

    “Consolai-vos, pois, uns aos outros e edificai-vos reciprocamente, como também estais fazendo” (1 Tessalonicenses 5.11).

O Novo Testamento está cheio de tais exortações. Jesus e os apóstolos não desejavam que o discipulado entre cristãos fosse excepcional, e sim normal.

Como um membro de nossa igreja, nós desejamos que você seja

    intencional,

    proposital,

    humilde

    e alegre

à medida que nós trabalhamos juntos para tornar normal esse tipo de relacionamento entre indivíduos.

Faça isso deixando que as pessoas o conheçam. Faça isso trabalhando para conhecê-las. De fato, todo o nosso trabalho consiste em cultivar uma cultura de discipulado neste lugar.

2. O que queremos dizer por uma “cultura de discipulado”?

Você provavelmente ouvirá bastante essa expressão entre nós. A maioria dos dicionários define “cultura” mais ou menos como “os valores, objetivos e práticas compartilhados que caracterizam um grupo”. É basicamente isso o que temos em mente no que se refere ao discipulado em nossa igreja. Nós não queremos apenas um programa, queremos que o amor e o encorajamento mútuos sejam um valor, um objetivo e uma prática que caracterizem cada um de nós de maneira crescente.

Programas formais não são necessariamente ruins, mas nós queremos ter certeza de que não nos desviamos do ideal bíblico. E o ideal bíblico, como dissemos, é nos tornarmos um lugar em que seja normal tomar a iniciativa de fazer o bem espiritual uns aos outros. Nós não precisamos nos inscrever em nada nem obter permissão alguma para começarmos a amar nossos companheiros de membresia dessa maneira. Tampouco você deseja uma igreja na qual o discipulado ocorre apenas quando sustentado pela liderança. Essa não é uma igreja saudável! Não, nós queremos que você ore e pense em como pode se envolver. E então converse com um presbítero ou algum outro membro sobre suas oportunidades e mordomias peculiares.

3. O que eu devo fazer em um relacionamento de discipulado?

O aspecto mais significativo de qualquer relacionamento de discipulado, com frequência, não é exatamente o que vocês fazem ao se encontrarem, mas o fato de vocês edificarem um relacionamento que tenha a verdade bíblica em seu âmago. Desse modo, não há um “programa estabelecido” para relacionamentos de discipulado em nossa igreja. Os membros fazem uma variedade de coisas:

    Reúnem-se semanalmente para discutir o sermão de domingo, um livro cristão ou um livro da Bíblia.

    Participam juntos de um Seminário Essencial[1] e discutem aplicações específicas para a vida uns dos outros.

    Convidam membros solteiros para se ajuntarem às devoções familiares.

    Acompanham mães com crianças pequenas em suas caminhadas.

    Ajudam pais no trabalho de jardinagem e buscam conselhos.

    Agendam “dias de jogos” para as crianças e conversam sobre o sermão dominical da noite.

Os exemplos abundam e os locais de encontro são flexíveis. O que é importante, de novo, é que você busque uma ocasião na qual tenha tempo para se relacionar com outro membro com o alvo intencional de encorajar e ser encorajado pela verdade da Palavra de Deus.

Então, seja criativo! Mas seja intencional com respeito a amar uns aos outros do melhor modo, o mais elevado e mais bíblico – almejando fazer o bem espiritual a outra pessoa.

Se você necessitar de ainda mais ajuda para pensar em relacionamentos de discipulado, nós temos um Seminário Essencial de treze semanas a respeito de discipulado. Participe dele na próxima vez que for oferecido, nas manhãs de domingo, às 9h30min. Ou baixe a apostila da aula sobre discipulado em www.capitolhillbaptist.org.[2]

4. Como eu posso entrar em um relacionamento de discipulado?

Há três maneiras de estabelecer um relacionamento de discipulado em nossa igreja. Primeiro, tome a iniciativa pessoal de tentar construir um relacionamento de discipulado com qualquer outro membro (do mesmo gênero seu, por favor). Não é preciso nenhuma permissão da liderança! Em vez disso, chegue cedo à igreja. Fique até tarde. Participe das refeições após os cultos nas noites de domingo. E comece a conhecer outras pessoas. Com o tempo, esperamos que você começará a construir o tipo de relacionamento no qual essas coisas acontecem naturalmente.

Segundo, peça ao líder do seu pequeno grupo sugestões e auxílio, se você participar de um pequeno grupo (o que não é obrigatório). Eles podem não estar livres para se encontrar com você regularmente, mas, à medida que o conhecerem melhor, possivelmente eles poderão ajudá-lo a se conectar com outro membro que possa fazê-lo.

Terceiro, se nenhum desses caminhos resultarem num relacionamento de discipulado regular, sinta-se livre para contatar um dos líderes da igreja para obter ajuda. Sempre há um número de membros que, por causa da agenda, da geografia ou de outras razões, têm dificuldade em se conectarem individualmente a outros membros. Nesses casos, a liderança da igreja tem o prazer de ajudar. Apenas ligue para o gabinete e agende com um dos pastores auxiliares.

Nós o encorajamos, de fato, a começar por sua própria iniciativa. Isso pode levá-lo a alongar, ou até mesmo desenvolver, os músculos da disciplina e do evangelismo que irão servir a você mesmo e a outros por anos a fio. Você pode descobrir que fazer isso é uma das experiências mais satisfatórias em sua vida como cristão. E você pode se ver compreendendo mais claramente o que Jesus pretendia ao dizer: “Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros” (João 13.35).

Notas:

[1] N.T.: Seminários Essenciais (Core Seminars) são classes de escola dominical para adultos, oferecidas na Capitol Hill Baptist Church, com o objetivo de ajudar os membros a compreenderem “as sutis complexidades e as abrangentes verdades do nosso Deus e da teologia, do ministério e da história que ele escreveu””. ([2] N.T.: Em inglês. Tradução: Vinícius Silva Pimentel. Revisão: Vinícius Musselman Pimentel. Disponível em: https://ministeriofiel.com.br/artigos/discipulado-o-que-e-o-que-fazer-e-como-comecar/. Acesso em: 15 NOV 21).

 

 

II – O DISCIPULADO E A MISSÃO INTEGRAL DE PREGAR E ENSINAR

 

   1.   A pregação: o ponto de partida.   Pregar o Evangelho é o meio que o Espírito Santo leva pessoas à salvação. É preciso pregá-lo com seriedade, intensidade e ousadia. A Igreja de Cristo se expandiu assim. Ela tinha como ponto de partida a tarefa que Jesus deixou aos seus discípulos, como vimos anteriormente. Nada pode substituir a dimensão proclamatória da Igreja. Para isso, ela foi revestida do poder do Espírito Santo para cumprir a missão (At 1.4-8). Quando os discípulos foram cheios do Espírito Santo no cenáculo em Jerusalém, a igreja se espalhou por todo o mundo. Assim, os discípulos de Cristo plantaram igrejas nas casas, nas aldeias, nas cidades. E a Igreja se multiplicava dia após dia (At 2.47).   

 

Comentário

- A missão dos apóstolos de difundir o evangelho foi a razão principal para a qual o Espírito Santo os capacitou. Esse acontecimento alterou dramaticamente a história mundial, e a mensagem do evangelho finalmente chegou a todas as partes da terra (Mt 28.19-20). O s apóstolos já haviam experimentado o poder do Espírito Santo de salvar, guiar, ensinar e realizar milagres. Em breve eles receberiam a presença habitadora do Espírito e uma nova dimensão de poder para testemunhar como pessoas que contam a verdade sobre Jesus Cristo (Jo 14.26; 1Pe 3.15). Testemunha aqui é uma palavra grega que significa “pessoa que dá a vida pela sua fé", pois esse foi o preço comumente pago pelo testemunho.

- CHAMPLIN escreve: “As testemunhas de Cristo são por ele mesmo designadas «…minhas testemunhas…» «Eram suas por uma relação pessoal direta». (Knowling, citado por Robertson, in loc.). As restrições próprias ao ministério do evangelho, impostas durante 0 ministério público de Jesus, antes de sua crucificação, conforme observamos, por exemplo, em Mat. 10:5, são aqui removidas. As únicas limitações que permanecem são as de um coração temeroso, de uma vida infiel, bem como do egoísmo pessoal, por parte dos discípulos. Esse ministério só poderia ser eficazmente realizado mediante o recebimento do Espírito Santo, o qual haveria de capacitar e orientar os discípulos, porque a vinda do Espírito Santo seria o equivalente a Cristo conosco e em nós, tendo vindo a fim de cumprir o ministério iniciado pelo Senhor Jesus durante a sua missão terrena. O grande objetivo dessa vinda seria capacitar os crentes a levarem a mensagem de Cristo até aos confins da terra, cobrindo o mundo com o anúncio de sua morte vitoriosa e de sua ressurreição triunfante a fim de que a plena salvação de Deus pudesse ser levada à humanidade. É patente que tal obra jamais poderia ser realizada a menos que 0 Espírito de Deus se fizesse presente a fim de dirigir a atuação da igreja, capacitando os crentes com o seu poder”. (CHAMPLIN, Russell Norman, O Novo Testamento Interpretado versículo por versículo. Editora Hagnos. Vol. 3. pag. 28).

 

   2.   O Ensino: “fazer discípulos”.   Discipulado começa quando pessoas aceitam a Jesus como Salvador de suas vidas. Logo, a conversão a Cristo é a semente da Igreja. Quando cuidada pelos discipuladores, essa semente germina e dá frutos. Não foi assim que aconteceu no dia de Pentecostes? Pedro se levantou dentre as 120 pessoas cheias do Espírito Santo e começou a pregar com autoridade sobre quem era Jesus (At 2.14-35). Resultado: quase três mil pessoas se converteram (At 2.41). E agora? O que fazer? Ensinar, ensinar e ensinar. Os apóstolos entenderam que deviam discipular esses recém-convertidos com a doutrina que receberam de Cristo (At 2.42-47). Ao longo do seu ministério, o apóstolo observou rigorosamente esse princípio e o aplicava nas vidas das pessoas que ele alcançava.

 

Comentário

- João Calvino comentando o texto de 1 Timóteo 1:1-4, onde Paulo dá sua recomendação inicial ao jovem pastor Timóteo para deter a propagação do ensino falso na igreja de Éfeso, escreve: “Paulo, apóstolo de Cristo Jesus segundo o mandato de Deus, nosso Salvador, e do Cristo Jesus, esperança nossa, a Timóteo, meu verdadeiro filho na fé: graça, misericórdia e paz da parte de Deus o Pai, e de Cristo Jesus nosso Senhor. Como te exortei a permaneceres em Éfeso, quando de viagem para Macedônia, que ordenasses a certos homens a não ensinarem uma doutrina diferente, tampouco se ocupassem de fábulas e genealogias intermináveis, que mais produzem questionamentos do que a edificação de Deus, que consiste na fé; assim o faço agora.

1. Paulo, apóstolo. Se porventura houvera ele escrito tão-somente a Timóteo, não haveria necessidade alguma de anunciar seus títulos e reafirmar suas reivindicações ao apostolado, como o faz aqui, pois certamente Timóteo ficaria suficientemente satisfeito como simples nome. Ele sabia que Paulo era apóstolo de Cristo, e não havia necessidade de comprovação alguma para convencê-lo, pois ele estava perfeitamente disposto a reconhecê-lo, e há muito que nutria tal sentimento. Portanto Paulo está aqui visando a outros que não estavam tão dispostos a dar-lhe ouvidos ou tão prontos a aceitar o que ele dizia. É por causa desses ‘outros’ que ele declara seu apostolado, a fim de que parassem de tratar o que ele ensina como se fosse algo sem importância.

E ele também alega que seu apostolado é pelo mandato ou designação de Deus, visto que ninguém pode fazer de si próprio um apóstolo. Mas o homem a quem Deus designara é apóstolo genuíno e digno de toda honra. Ele, porém, não tem a Deus o Pai como a única fonte de seu apostolado, senão que adiciona também o nome de Cristo. Pois, no governo da Igreja, o Pai nada faz que não seja através do Filho, de modo que todas as suas ações são assumidas juntamente com o Filho. Ele denomina a Deus de o Salvador, título este mais comumente destinado ao Filho. E no entanto é um título perfeitamente apropriado ao próprio Pai, pois foi ele quem nos deu seu Filho, de modo que é justo destinar-lhe a glória de nossa salvação. Pois somos salvos unicamente porque o Pai nos amou de tal maneira, que foi de sua vontade redimir-nos e salvar-nos através do Filho. A Cristo ele denomina de esperança nossa, título este que pertence especificamente a ele, pois é só quando olhamos para ele que começamos a desfrutar de boa esperança, porquanto é tão-somente nele que se encontra toda a nossa salvação.

2. A Timóteo, meu verdadeiro filho. Esta qualificação comunica grande honra a Timóteo, pois Paulo o reconhece como seu filho legítimo, não menos digno que seu pai, e deseja que outros o reconheçam como tal. De fato, ele enaltece a Timóteo como se ele fosse outro Paulo. Todavia, como seria isso consistente com o mandamento de Cristo: “A ninguém sobre a terra chameis vosso pai” [Mateus 23:9], e com a própria afirmação do apóstolo: “Porque, ainda que tivésseis milhares de preceptores em Cristo, não teríeis, contudo, muito pais”; “não havereis de estar em muito maior submissão ao Pai dos espíritos” [1 Coríntios 4:15; Hebreus 12:9]? Minha resposta é que a alegação de Paulo de ser pai de forma alguma anula ou diminui a honra devida a Deus. Diz-se com freqüência que, se uma coisa é subordinada a outra, não haverá conflito entre elas. Isso procede no tocante à reivindicação de Paulo ao título pai em relação a Deus. Deus é o único Pai de todos no âmbito da fé, porquanto regenera a todos os crentes pela instrumentalidade de sua Palavra e pelo poder de seu Espírito, e é exclusivamente ele que confere a fé. Aqueles a quem graciosamente lhe apraz empregar como seus ministros, ao fazer isso ele admite que participem de sua honra, todavia sem resignar nada de si próprio. Assim, Deus era o Pai espiritual de Timóteo, e, estritamente falando, exclusivamente ele; Paulo, porém, que fora ministro de Deus no novo nascimento de Timóteo, reivindica para si direito ao título, porém em segundo plano.

Graça, misericórdia e paz. Ao introduzir aqui a palavra misericórdia em segundo plano, ele se afasta de seu método usual, provavelmente em função de seu amor especial por Timóteo. Ele, porém, não está observando a ordem exata das palavras, pois coloca ‘graça’ em primeiro lugar, quando devia estar em segundo, uma vez que é da misericórdia que a graça emana. É em razão de ser misericordioso que Deus primeiro nos recebe em sua graça, e então prossegue nos amando. Mas é perfeitamente normal mencionar a causa e em seguida o efeito, à guisa de explicação. Já discorri sobre a graça e a paz em outro lugar.

3. Como te exortei. Ou a afirmação é deixada incompleta, ou a partícula i[na é redundante; em ambos os casos, porém, o significado é óbvio. Primeiramente, ele lembra a Timóteo por que lhe pedia que ficasse em Éfeso. Foi com grande relutância, e só sob compulsão da necessidade, que Paulo se deixara separar de um assistente tão amado e fiel como Timóteo, para que, como seu correspondente, pudesse levar a cabo os deveres que demandavam a responsabilidade que não havia em nenhum outro para que se cumprissem. Isso deve ter exercido uma profunda influência em Timóteo, não só por tê-lo impedido de desperdiçar seu tempo, mas o ajudou a comportar-se de maneira excelente, além do comum. Ele aqui também encoraja Timóteo a opor-se aos falsos mestres que estavam adulterando a doutrina em sua pureza. Neste apelo para Timóteo cumprir seu dever em Éfeso, devemos notar a piedosa preocupação do apóstolo. Porque, enquanto se esforçava por estabelecer muitas novas igrejas, ele não deixava as anteriores destituídas de pastor. Indubitavelmente, como diz o escritor, “Para manter a salvo o que você já conquistou necessita-se de tanta habilidade quanta para conquistá-lo”. A palavra ordenar compreende autoridade, pois era o propósito de Paulo revestir a Timóteo com autoridade para que pudesse ele refrear a outros.

A não ensinarem uma doutrina diferente. O termo grego, eterodidaskalei~n [heterodidaskalein], que Paulo usa aqui, é composto, e pode ser traduzido num sentido ou de “ensinar de modo diferente, fazendo uso de um novo método”, ou “ensinar uma nova doutrina”. A tradução de Erasmo, “seguir uma nova doutrina”, não me satisfaz, visto que a mesma poderia aplicar-se tanto aos ouvintes quanto aos mestres. Se lemos: “ensinar de uma forma diferente”, o significado será mais amplo, pois Paulo estaria proibindo a Timóteo de permitir a introdução de novos métodos de ensino que sejam incompatíveis com o modo legítimo e genuíno que lhe havia comunicado. Assim, na segunda epístola, ele não aconselha Timóteo a simplesmente conservar a substância de seu ensino, mas usa o termo upotu>pwsiv, o qual significa uma semelhança viva de seu ensino. Como a verdade de Deus é única, assim não há senão um só método de ensiná-la, o qual se acha livre de falta pretensão e que degusta mais saborosamente a majestade do Espírito do que as demonstrações externas de eloqüência humana. Se alguém se aparta disso, ele deforma e vicia a própria doutrina; e assim, “ensinar de maneira diferente”, aponta para a forma.

Se lermos: “ensinar algo diferente”, então a referência será à substância do próprio ensino. É digno de nota que, por nova doutrina, significa não só o ensino que está em franco conflito com a sã doutrina do evangelho, mas também tudo o que, ou corrompe a pureza do evangelho por meio de invenções novas e adventícias, ou o obscurece por meio de especulações irreverentes. Todas as manipulações humanas são outras tantas corrupções do evangelho, e aqueles que fazem mau uso das Escrituras, como costumam fazer as pessoas ímpias, fazendo do Cristianismo uma engenhosa exibição, obscurecem o evangelho. Todo ensino desse gênero é oposto à Palavra de Deus e àquela pureza da doutrina na qual Paulo ordena aos efésios a permanecerem firmes.

4. Tampouco se ocupem de fábulas. Em minha opinião, o apóstolo quer dizer, por fábulas, não tanto as falsidades excogitadas, mas principalmente aqueles contos fúteis e levianos que não têm em si nada de sólido. Uma coisa pode não ser em si mesma falsa, e no entanto ser fabulosa. É nesse sentido que Suetônio falou de “história fabulosa”, e Levi usa o verbo fabulari [inventar fábulas], no sentido de palavrório tolo e irracional. Não há dúvida de que mu~qov [muthos], o termo que Paulo usa aqui, significa em grego fluari>a [fluaria], bagatelas, e quando ele menciona um tipo de fábula como exemplo do que tem em mente, toda dúvida se esvai. Ele inclui entre fábulas as controvérsias sobre genealogias, não porque tudo o que se pode dizer sobre elas seja fictício, mas porque é tolice e perda de tempo.

A passagem, portanto, pode ser tomada no seguinte sentido: não devem atentar para as fábulas como se fossem do mesmo caráter e descrição das genealogias. De fato é isso precisamente o que Suetônio quis dizer por história fabulosa, a qual, mesmo entre os homens das letras, tem sido com justa razão criticada pelas pessoas de bom senso. Pois era impossível não considerar ridícula essa curiosidade que, negligenciando o conhecimento útil, passou a vida inteira investigando a genealogia de Aquiles e Ajax, e despendeu suas energias em contar os filhos de Príamo. Se tal coisa é intolerável no aprendizado em salas de aulas, onde há espaço para agradável passa-tempo, quanto mais intolerável será a mesma para o nosso conhecimento de Deus. Ele fala de genealogias intermináveis, porque a fútil curiosidade não tem limites, mas continuamente passa de um labirinto a outro.

Que mais produzem questionamentos. Ele julga a doutrina por seu fruto. Tudo o que não edifica deve ser rejeitado, ainda que não tenha nenhum outro defeito; e tudo o que só serve para suscitar controvérsia deve ser duplamente condenado. Tais são as questões sutis nas quais os homens ambiciosos praticam suas habilidades. É mister que nos lembremos de que todas as doutrinas devem ser comprovadas mediante esta regra: aquelas que contribuem para a edificação devem ser aprovadas, mas aquelas que ocasionam motivos para controvérsias infrutíferas devem ser rejeitadas como indignas da Igreja de Deus. Se este teste houvera sido aplicado há muitos séculos, então, ainda que a religião viesse a se corromper por muitos erros, ao menos a arte diabólica das controvérsias ferinas, a qual recebeu a aprovação da teologia escolástica, não haveria prevalecido em grau tão elevado. Pois tal teologia outra coisa não é senão contendas e vãs especulações sem qualquer conteúdo de real valor. Por mais versado um homem seja nela; mais miserável o devemos considerar. Estou cônscio dos argumentos plausíveis com que ela é defendida, mas jamais descobrirão que Paulo haja falado em vão ao condenar aqui tudo quanto é da mesma natureza.

A edificação de Deus [aedificationem Dei]. Sutilezas desse gênero edificam os homens na soberba e na vaidade, mas não em Deus. O apóstolo fala de edificação que é segundo a piedade, seja porque Deus a aprova, seja porque ela é obediente a Deus, e nisso ele inclui o amor uns pelos outros, o temor de Deus e o arrependimento, pois todos esses elementos são frutos da fé que sempre nos conduz à piedade. Sabendo que todo o culto divino é fundamentado tão-somente na fé, ele creu ser suficiente mencionar a fé da qual dependem todas as coisas”. (Fonte: CALVINO, João. Pastorais. Trad. Valter Graciano Martins. 1ed. São Paulo: PARACLETOS Ed., 1998. 379p.; pp. 25-31).

 

   3.   Pregação e ensino. A igreja local é um lugar onde a Palavra de Deus deve ser proclamada com autoridade, em que pessoas sejam atraídas pelo Espirito Santo a Cristo. Mas a igreja também é um local de formação por meio do ensino da Bíblia. Por isso que as reuniões de Escola Dominical e os cultos de ensino da Palavra são instrumentos importantes para forjar o caráter cristão e formar pessoas (crianças, adolescentes, jovens e adultos) que imitem a Cristo em suas vidas. Essa é uma das nobres missões da Igreja de Cristo.

 

Comentário

- A igreja local deve planejar e se engajar a não se contentar simplesmente em levar pessoas à conversão e a uma consolidação na fé; deve, sobretudo, ajudá-las a descobrir, desenvolver e aplicar os seus dons. Na carta aos Efésios (4.11,12) encontramos o seguinte registro: “E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo”.

- Falando sobre a importância do ensino na igreja, CHAMPLIN escreve: “Ensinemos por meio de palavras, pela mensagem dos hinos, pela força do exemplo. O ensino faz parte da Grande Comissão (ver Mt 28.20).

    Os dons espirituais existem para servir de auxilio no ministério do ensino, e o alvo de tudo é a maturidade espiritual, o crescimento e o aperfeiçoamento dos santos (ver Ef 4.11 e ss).

    Os verdadeiros mestres são dádivas divinas à igreja, para seu benefício (ver Ef 4.11). E o dom do «conhecimento é dado especialmente aos mestres, a fim de que sejam eficazes em seu ministério (ver 1Co 12.8).

    O ensino tem um efeito codificador. Portanto, é importante, se a igreja tiver de ser edificada», O ensino é vital para esse propósito.

    As Escrituras Sagradas nos foram transmitidas nessa forma escrita a fim de que o ministério do ensino fosse facilitado e se tomasse mais eficaz.

    Acima de tudo o mais, Cristo foi o Mestre supremo. Se seguirmos o exemplo que nos deixou, sem dúvida haveremos de ensinar.

    Aqueles que somente evangelizam, negligenciando o ensino cristão, terão de contentar-se com uma igreja infantil, carnal, com disputas e cisões na igreja local. Um povo faminto espiritualmente, será um povo infeliz.

    A ausência de ensino cristão arma o palco para a apostasia. (ver Hb 6.1 e ss).

    Chega um tempo, na vida de cada crente, que se espera que ele se tome um mestre, e não um aprendiz (ver Hb 5.12).

    Observemos a importância emprestada por Paulo à necessidade de haverem homens bons que sejam mestres de outras pessoas na fé cristã, para que esta possa passar de uma geração à outra (ver 2Tm 2.2)”. (CHAMPLIN, Russell Norman, Enciclopédia de Bíblia Teologia e Filosofia. Editora Hagnos. Vol. 2. pag. 390).   

 

III – O DISCIPULADO COM PESSOAS DE OUTRAS CULTURAS

 

   1.   A pregação para os seus irmãos. No livro de Atos, percebemos que a pregação dos apóstolos era primeiramente direcionada aos judeus. Eles pregavam no Templo, nas sinagogas e os judeus recebiam a Palavra, outros, porém, a rejeitavam (3.1-10; 6.9: 7.51-53). Os apóstolos desejavam que seus irmãos recebessem a Palavra da Verdade. Entre tanto, o desafio diante da Lei de Moisés com o fenômeno da conversão entre os gentios se revelaria complexo, conforme nos mostra a questão cultural entre os judeus hebreus e helênicos (At 6.1-6). O derramamento do Espirito na casa de Cornélio (At 10.44-48) e a concilio de Jerusalém (Ar 15). O Evangelho entre os gentios trouxe um grande desafio para a igreja que crescia.   

 

Comentário

- Paulo linha o costume de pregar primeiramente aos judeus toda vez que entrava numa nova cidade (At 14.1; 17.1,10,17; 18.4.19.26; 19.8) porque dispunha de uma porta aberta, como judeu que era, para falar e apresentar o evangelho. E também, se ele pregasse primeiramente aos gentios, os judeus nunca o escutariam. Em Galatas 1.11, Paulo começa dizendo: “faço-vos conhecer, irmãos”, no intuito de chamar atenção para algo muito importante a ser considerado. Ele queria mostrar como tinha sido sua fase antes da visão que teve no caminho de Damasco. Essa fase lhe outorgava autoridade para falar a quem estava na mesma situação dele, nesse antes da conversão. No judaísmo destacava-se entre todos os seus companheiros (1,14) e, depois, no cristianismo crescia mais e mais (At 9,22) destacando-se em qualidades humanas, capacidades intelectuais e forma de vida de fé.

- “Não é sem motivo que Cristo vem como o Verbo em carne, a principal comunicação de Deus com o seu povo (Hebreus 1.1,2). E é por meio da Bíblia que Deus revela quem é, o que fez, e como devemos responder a isso. A Palavra de Deus é o meio pelo qual ele traz para si um povo (Romanos 10.17). Tenho de admitir que essa parece ser uma abordagem estranha. Que bem um livro antigo é capaz de trazer diante da pobreza generalizada, de ciclos de abuso sexual, de vício em drogas e de desesperança? Observe o que a Bíblia tem a dizer a respeito do poder da Palavra de Deus: Paulo aos líderes em Éfeso: “Agora, pois, encomendo-vos ao Senhor e à palavra da sua graça, que tem poder para vos edificar e dar herança entre todos os que são santificados” (Atos 20.32). Paulo à igreja em Roma: “Pois não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, primeiro do judeu e também do grego” (Romanos 1.16). E novamente: “Como, porém, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue?… E, assim, a fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo” (Romanos 10.14,17). O autor de Hebreus declara: “Porque a palavra de Deus é viva, e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração” (Hebreus 4.12). Muitas igrejas jamais tentam ministrar aos pobres, pois se sentem diante de uma batalha para a qual não estão equipados. Outros entram com tudo na batalha, mas usando as armas erradas. Eles vão com folhetos e programas sociais, entretanto com pouca mudança de vida ou fruto visível. Mas a Palavra de Deus é uma espada de dois gumes. Ela é capaz de penetrar qualquer coração. A Bíblia é onde encontramos a mensagem do evangelho, o poder de Deus para a salvação. Se temos a Palavra de Deus aplicada pelo Espírito de Deus, temos todos os recursos de que precisamos para ministrar em qualquer comunidade(Mez McConnell e Mike McKinley; Igreja em Lugares Difíceis, como a igreja local traz vida ao pobre e necessitado. Editora Fiel. Ed. 1, 2016).   

 

   2.  A expansão para os gentios. A Igreja não poderia fugir dos gentios pois alcançá-los era promessa de Cristo registrada em Atos 1.8. Os apóstolos seriam testemunhas de Cristo não só em Jerusalém, mas passariam por Judeia e Samaria para chegar aos confins da terra. Por isso, nosso Senhor levantou um homem tenaz e valente, separado para ser “apóstolo dos gentios” (At 9.1-9; 26.14-18). O apóstolo Paulo discipulou pessoas oriundas de diversas culturas e costumes religiosos.   

 

Comentário

- Por mais que Paulo explicasse a forma de sua vocação e missão, era bastante complexo aos da “instituição” de Jerusalém, Tiago e Cefas, para aceitar essa revelação. Uma prova da autenticidade é a confissão que ele faz dos tempos em que colocava todas as suas energias na defesa do judaísmo (1,13-14) e que, depois do encontro com o Ressuscitado, tudo se tornou esterco (Fl 3,8). Não sabemos se os responsáveis pela igreja de Jerusalém tinham todas as informações a respeito da visão que ele recebeu no caminho para Damasco (At 9,1-19). A pregação na Galácia seguia os passos e o método que ele utilizava em todos os lugares: não se tratava de apostar na circuncisão, mas na confissão de que Jesus Cristo era Senhor. Essa separação clara e o distanciamento do judaísmo tornavam muito difícil, para o Apóstolo, ganhar crédito diante dos cristãos de origem judaica, já que o consideravam um traidor das tradições dos antepassados.

- O Pr Elienai Cabral escreve: “A promessa de poder para testemunhar de Cristo seria cumprida e, de fato, cumpriu-se. Em primeiro lugar, eles receberam poder para obedecer a ordem da missão. Segundo, eles seriam testemunhas de Cristo, de tudo o que viram e ouviram da parte de Jesus. Terceiro, depois eles iriam para Jerusalém, Judeia e Samaria e até aos confins da terra. Nessa promessa, a visão de Cristo não se restringia geograficamente, mas ia além de Jerusalém, porque alcançaria o mundo inteiro. Nos primeiros anos da vida da igreja, ela não ficou restrita aos judeus, porque Jesus escolheu um homem tenaz e valente chamado Saulo de Tarso, que era um temido inimigo de Cristo e da igreja. O Senhor interceptou-o no caminho de Damasco, fez com que ele caísse por terra mediante a poderosa luz resplandecente que o deixou cego por três dias, levando-o a entender que era Jesus que o interceptava, produzindo um novo sentimento em seu coração e convertendo-o para servir aos interesses dEle, como pregador e “apóstolo dos gentios” (At 9.1-9; 26.14-18). Não há nenhuma depreciação pelos 12 apóstolos, porque foram escolhidos pelo Senhor; pelo contrário, cada um deles deixou na História da Igreja o testemunho vibrante do ministério que tiveram ao espalharem-se pela Ásia, Europa, África e outras regiões do mundo”. (Cabral. Elienai,. O Apostolo Paulo, Lições de Vida e Ministério do Apostolo do Gentios para a Igreja de Cristo. Editora CPAD. Ed. 1, 2021).   

- Também CHAMPLIN nos traz: “«…para os quais eu te envio…» Essas palavras poderiam significar, sobretudo nesta passagem, como é natural, que Paulo estava sendo enviado somente aos gentios. Isso tornaria tal declaração paralela à de Atos 22:21, que diz respeito à comissão apostólica que foi proporcionada a Paulo, imediatamente depois de sua visão inicial, quando Paulo recebeu um transe, estando a orar no templo de Jerusalém. Alguns intérpretes, porém, preferem pensar que essas palavras se referem tanto aos judeus como aos gentios, porquanto, como é evidente, isso é o que sucedia por onde quer que Paulo pregasse —ele pregava primeiramente aos judeus, e muitos de seus convertidos mais notáveis foram conquistados na sinagoga”. (CHAMPLIN, Russell Norman, O Novo Testamento Interpretado versículo por versículo. Editora Hagnos. Vol. 3. pag. 517).   

 

   3.  O discipulado numa cultura diferente. O ministério do apóstolo Paulo nos mostra que o discipulado é o melhor método para ensinar o Evangelho às pessoas que vêm de culturas diferentes, religiões diversas e costumes, na maioria das vezes, incompatíveis com o Evangelho. Com Paulo, aprendemos que à proporção que absorvemos o Evangelho, nossa forma de pensar é alterada para desejar as coisas mais nobres e fazer o que glorifica a Deus (Fp 4.8.9: Cl 3.2; 1 Co 10.31). Portanto, “não por força, nem por violência, mas peto meu Espírito, diz o Senhor dos Exércitos” (Zc 4.6).   

 

Comentário

- Disicpular significa deixar que te sigam! Mez McConnell e Mike McKinley escrevem em “Igreja em Lugares Difíceis, como a igreja local traz vida ao pobre e necessitado” (Fiel): “Evangelizar é persuadir as pessoas Em Atos 17.2–4, lemos: Paulo, segundo o seu costume, foi procurá-los e, por três sábados, arrazoou com eles acerca das Escrituras, expondo e demonstrando ter sido necessário que o Cristo padecesse e ressurgisse dentre os mortos; e este, dizia ele, é o Cristo, Jesus, que eu vos anuncio. Alguns deles foram persuadidos e unidos a Paulo e Silas, bem como numerosa multidão de gregos piedosos e muitas distintas mulheres. A conversão é obra do Espírito de Deus do começo ao fim, mas as pessoas ainda precisam ser persuadidas. Em nosso ensino, precisamos estar preparados para responder a qualquer pessoa que nos perguntar (1 Pedro 3.15). Meu primeiro esforço de persuasão foi num cemitério da igreja duas semanas após a minha conversão. Eu tentava persuadir uma amiga minha de que a vida era breve e que precisávamos cuidar da alma. Eu não sabia muito mais do que o fato de que Jesus morreu numa cruz, não tinha uma apologética inteligente ou argumentos teológicos perspicazes. Sabia apenas que Cristo era real e que algo dentro de mim havia mudado para sempre. Então levei minha amiga para o cemitério, apesar da grande frustração que tinha com minha incapacidade, a conduzi até a lápide mais próxima e lhe disse que se não se arrependesse de seus pecados morreria, seria enterrada e queimaria eternamente no inferno. Ela se colocou de joelhos, aos prantos, e oramos juntos. Fico feliz em lhe dizer que me arrependi daquela forma de persuasão. Queremos persuadir as pessoas, e não manipulá-las com temor ou promessas de coisas boas. A propósito, usar o temor nos conjuntos habitacionais não funciona. A vida ali já é completamente miserável. A esperança de uma vida melhor funciona mais, pois isso é o que as pessoas dali desejam; é por isso que o evangelho da prosperidade é tão efetivo ali. O que queremos é persuadir com a declaração aberta da verdade (2 Coríntios 4.2), que é confirmada por uma vida atraente. Precisamos viver de tal forma que as pessoas se vejam forçadas a perguntar sobre a nossa fé. Não somos capazes de transformar pecadores; podemos apenas ensiná-los e persuadi-los acerca das verdades do evangelho conforme reveladas na Bíblia. O resto depende de oração e da soberana e eletiva graça do Espírito Santo de Deus”. (Mez McConnell e Mike McKinley; Igreja em Lugares Difíceis, como a igreja local traz vida ao pobre e necessitado. Editora Fiel. Ed. 1, 2016).   

- Um dos maiores obstáculos para compreendermos o que é fazer discípulos é lermos essa expressão unicamente com as lentes da soteriologia, do estudo das doutrinas da salvação, sem atentarmos para o fato óbvio de que Jesus fez discípulos discipulando-os, não apenas salvando-os.

De modo geral, não paramos para pensar que os discípulos jamais precisariam especular – como fazemos hoje – sobre o que significou a ordem de “ide, fazei discípulos”, já que o discipulado era uma realidade presente em sua cultura e em sua própria experiência recente com Jesus.

Os discípulos nunca responderiam à Grande Comissão com “como faremos isso?”. Essa pergunta não está lá – nem poderia estar – porque os discípulos não tiveram dúvidas de como deveriam executar o que Jesus lhes estava pedindo. Eles foram discipulados!

Fazendo nossos próprios discípulos de Jesus

Se admitirmos que o Senhor Jesus ordenou que reproduzíssemos com outros o que ele fez com aqueles doze homens, então a Grande Comissão nos obriga a fazer discípulos não apenas dele, mas também de nós – à medida que somos discípulos dele. Por mais paradoxal que pareça, a missão que Cristo nos entregou é cumprida ao produzirmos os nossos próprios discípulos dele.

Quando Jesus se despediu de seus discípulos e os incumbiu de ensinar a novas pessoas, estava nomeando todos eles como discipuladores. Desde então e até os dias de hoje, Jesus não vai descer do céu para fazer novos discípulos. Agora isso compete a nós. Se fizermos discípulos apenas de Cristo e não de nós, então não estaremos discipulando, pois o sujeito ativo do “fazer discípulos” na Grande Comissão somos nós, e não ele.

Com tudo isso, não quero dizer que o objetivo final do discipulado é levar alguém a parecer-se conosco. Se for assim, teremos um alvo muito medíocre. A finalidade do discipulado é produzir um imitador de Cristo. Se o referencial sempre é Cristo e se nós o seguimos, o discípulo poderá seguir a nós.

Obter convertidos ou nutrir um relacionamento discipulador?

Mas por que será que recusamos tanto a ideia de termos nossos discípulos de Cristo? Uma parte da resposta é a rejeição a determinados movimentos de discipulado mais recentes que destoam do padrão bíblico. Mas, antes mesmo que tais movimentos surgissem, nós também não aceitávamos a ideia de que um discípulo genuíno de Cristo pudesse ter discípulos, ainda que por meio de um relacionamento saudável. Nós até admitimos que o discipulado pressupõe um discipulador de um lado e um discípulo de outro, mas chamamos esse discípulo de “discipulando”, “pupilo”, “mentoreado” ou até de “catecúmeno”, menos de discípulo.

Outra razão para essa recusa vem do fato de que, para muitos de nós, fazer discípulos tem sido pouco mais do que obter convertidos. Por esse pensamento, quando Jesus nos deu a Grande Comissão, sua intenção seria basicamente que buscássemos pessoas perdidas para a salvação. Com certeza, há algo de bíblico aqui. Mas a questão não é se nossa missão inclui semear o evangelho, mas se ela se resume a isso.

Bem, se nossa visão de fazer discípulos se limita a obter convertidos, então poderíamos fazer discípulos sem nenhum envolvimento relacional, e Jesus poderia ter feito discípulos sem ter convidado ninguém para segui-lo, pois seus sermões públicos bastariam.

Precisamos fazer discípulos de Jesus, sim, no sentido de levar pessoas ao arrependimento e à fé nele a fim de que sejam salvas. Mas também precisamos fazer discípulos de nós, o que significa desenvolver com essas pessoas um relacionamento de cuidado, ensino e aperfeiçoamento, para que elas também sejam levadas à multiplicação. Esse tipo de vínculo é o que chamamos de relacionamento discipulador, uma expressão formulada no contexto batista pela Junta de Missões Nacionais com a visão de Igreja Multiplicadora.

A essência do discipulado é seguir alguém

A Grande Comissão é algo que se implementa via relacionamentos. Ela acontece pela influência de um discípulo em outro, pessoa a pessoa, geração a geração, até chegar a todas as nações. Quanto à salvação, o discípulo é de Cristo, pois quem salva é ele. Quanto ao relacionamento discipulador, o discípulo é nosso, pois quem discipula somos nós.

Não se choque com os pronomes. Eles dão uma falsa ideia de posse. O sentido não é esse. Na verdade, entendo e respeito sua opção de não chamar os seus discípulos de seus, se for o caso. Você pode chamá-los de “discipulandos”, por exemplo. Contudo, certifique-se de que esteja desenvolvendo com eles o relacionamento discipulador modelado por Jesus. (Diogo Carvalho é pastor batista, gerente de evangelismo da Junta de Missões Nacionais, autor do livro Relacionamento Discipulador: uma teologia da vida discipular. Você pode conhecer a visão de Igreja Multiplicadora em www.igrejamultiplicadora.org.br.)

 

 

CONCLUSÃO

O discipulado leva em conta a pregação e o ensinamento. Ele nos apresenta um desafio grande para interagir com pessoas oriundas de culturas completamente opostas às nossas. Aqui, temos a promessa do Espírito Santo para apresentar o Evangelho com sabedoria e poder. Ele nos usa como instrumento e convence o ser humano de seu real estado.   

 

Comentário

- “e vos designei para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça” (Jo 15.16b). O amor de Cristo por seus discípulos é propositado. Ele os chamou a darem fruto para a glória de Deus. Em outras palavras, o seu amor não é meramente sentimental, mas tem o compromisso maravilhoso de glorificar a Deus. Se havemos de amar uns aos outros como Cristo nos amou, certamente iremos compartilhar os objetivos de Jesus para conosco, isto é, o bem espiritual dos nossos amigos e a glória de Deus por meio da alegria deles no evangelho.

- Seguir a Cristo, não se constitui em um ato isolado. Não é uma atitude realizada uma vez e nunca repetida. O “seguimento” é um compromisso para a vida toda, que só será efetivamente cumprido na eternidade. Isto significa que o discipulado não é somente uma porta de entrada, mas um caminho a ser seguido. O discípulo prova a validade de sua decisão seguindo até o final. O verdadeiro discípulo segue Jesus até o fim, em todos os sentidos.

Comentário elaborado pelo Presbítero Francisco Barbosa. Ao compartilhar, favor citar fonte.

 

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PARA REFLETIR

A respeito de “Paulo, o Discipulador de Vidas”, responda:

 

    Em que se baseava o princípio do discipulado na Igreja Primitiva?

O princípio do discipulado na igreja primitiva baseava-se na ordem da Grande Comissão que Jesus deu aos discípulos por ocasião de seu aparecimento e despedida (Mt 28.19,20). 

    O que vemos ao longo das cartas de Paulo?

Ao longo das cartas de Paulo, vemos um compromisso profundo com doutrina exposta e a sua aplicabilidade na vida do discípulo. 

    Qual é o meio que o Espírito Santo leva pessoas à salvação?

Pregar o Evangelho. 

    Quando o discipulado começa?

O discipulado começa quando pessoas aceitam a Jesus como Salvador suas vidas. 

    O que o ministério do apóstolo Paulo nos mostra acerca do discipulado?

O ministério do apóstolo Paulo nos mostra que o discipulado é o melhor método para ensinar o Evangelho às pessoas que vêm de culturas diferentes, religiões diversas e costumes na maioria das vezes incompatíveis com o Evangelho.